quarta-feira, dezembro 28, 2005

Pôr as mãos na massa

José Carlos Abrantes

Em 2005, fizeram-se muitas imagens e sons, criaram-se páginas web, fotografaram-se acontecimentos e montaram-se muitas peças de teatro. É normal que assim seja em sociedades como a nossa. Podemos apreciar um concerto, consultar a internet, fruir uma exposição de fotografia ou uma instalação. Durante muitos anos a Fundação Calouste Gulbenkian foi um oásis na oferta cultural em Portugal. Felizmente tem havido a expansão de equipamentos para consumo cultural, o que é positivo. A partir dos anos 90, o Centro Cultural de Belém foi um marco, tal como a Culturgest ou a Fundação de Serralves. Em Coimbra criou-se o Centro de Artes Visuais e, mais recentemente, abriu a Casa da Música no Porto, onde antes, já aí tinha sido criada a Casa da Animação. O Cinanima tem anualmente lugar no Centro Multi-Meios de Espinho. Em Cascais existe um Centro Cultural, como em muitas outras cidades e vilas. Em Serpa há um magnífico anfiteatro, onde tem sido realizado o Doc’s Kingdom, uma iniciativa de divulgação do cinema documental. Almada inaugurou este ano um novo teatro, o que vai dar ao Festival de Joaquim Benite um novo espaço.
Antes das autárquicas, um grupo de pessoas ligadas à cultura considerou que não seria preciso expandir mais a rede de locais de oferta cultural, pois esta seria satisfatória. De facto, haverá ainda alguns desequilíbrios, regionais ou por sector. É muito positivo que os cidadãos tenham locais para consumir, para ver e partilhar as obras de arte, a criação. Mas há outra dimensão que deve ser analisada: a expressão dos cidadãos, individual ou em grupo, pois ocupar o tempo de formas gratificantes é um objectivo de todos. Vale a pena ocupar o tempo na criação de objectos culturais e de análise da vida quotidiana: vídeo, fotografia, cinema, imagem digital, os gestos da criação teatral. Ora, faltam locais onde as populações, nomeadamente os jovens, os idosos, os excluídos ou outros grupos, possam, devidamente enquadrados e utilizando equipamentos colectivos, ocupar o seu tempo de forma criativa. Isso falta como o pão para a boca. E podia não faltar. Há sempre locais que estão ciclicamente a ser apontados como devendo continuar como espaços de cultura, mesmo ao perderem essa função, caso do cinema Europa, no bairro de Campo de Ourique, em Lisboa, por exemplo. Carmona Rodrigues reconheceu recentemente, numa entrevista ao DN, que, no Parque das Nações, falta um espaço cultural. Tudo leva a crer que a colecção Berardo vai ser aí acolhida. Tudo bem! Mas porque será que a cultura é quase sempre a cultura do consumo, do ir ver, do olhar? Não do fazer. Abram-se ao lado lugares onde as mãos e o pensamento se possam aliar. Lembro também o cinema S. Jorge, em Lisboa, outro bom exemplo. É um local de exibição que ainda não encontrou identidade. Instale-se numa parte um estúdio de vídeo, feito com meios modestos, comprem-se algumas câmaras digitais (vídeo e fotografia), faça-se um acordo com quem tem saberes no vídeo, na fotografia, na manipulação de imagem em computador. Ou contratem-se monitores. Abra-se essa estrutura das 9h às 24h. Ponham-se computadores em acesso fácil com programas de tratamento e criação de imagens. Mantenha-se uma pequena sala para exibição de filmes feitos por realizadores portugueses, nomeadamente documentários. Deixem-se os criadores novos, amadores, falar com os antigos. Estimule-se a intervenção de realizadores de cinema ou criadores de vídeo, de documentaristas, de encenadores. Não para fazerem os seus espectáculos, mas para orientarem e ajudarem na criação das obras dos outros, dos amadores, dos cidadãos. Exibam-se os vídeos feitos pelos criadores desta estrutura, convidando os públicos envolvidos nas filmagens. Enfim, programas e projectos não faltarão. A Europa audiovisual como se faz? Com o consumo apenas, ou também com a produção? Como se ajudam os jovens a crescer? Na rua ou a fazer obra útil? O investimento em equipamentos, espaços e recursos para a criação é uma exigência das sociedades modernas.
É uma tarefa para as Câmaras, também. Pensemos um novo Parque Mayer não apenas com teatros, mas com outros espaços de criação.
Aqui e além existem já alguns locais de acesso, ateliers que se organizam, serviços educativos que põem em actividade crianças e jovens, o que é positivo. Mas há um esforço maior a fazer neste domínio e que seria muito útil ao país. É melhor gastar em formação e criação do que em repressão ou reabilitação. É melhor criar emprego, que subsidiar o desemprego. Senhores presidentes das Câmaras, senhora Ministra da Educação, senhora Ministra da Cultura: o olhar constrói-se vendo, mas também fazendo. A participação na vida pública deve ser feita nas eleições mas também no dia a dia. Vendo, ouvindo, pensando, fazendo, discutindo. Criando contextos onde os valores de solidariedade e de cooperação possam frutificar. Onde horizontes de esperança se desenhem, sobretudo onde esta escasseie. E, não esqueçamos que parte importante da “massa” de hoje são os símbolos com os quais nos contamos estórias do presente e do passado, refiram-se estas ao que nos acontece ou ao que imaginamos. É preciso pôr as mãos na massa.

(publicado no Expresso de sábado, dia 10 de Dezembro 2005)

segunda-feira, dezembro 19, 2005

AS CADEIRAS DO PODER Eduardo Cintra Torres Publico 18-12-2005

Felisbela Lopes doutorou-se segunda-feira em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho com um estudo sobre a informação não-diária dos canais generalistas portugueses de 1993 a 2003. A tese prossegue o trabalho anterior sobre O Telejornal e o Serviço Público (MinervaCoimbra, 1999). Numa comunicação ao 4º Congresso da SOPCOM, realizado em Outubro em Aveiro, Felisbela Lopes fez uma apresentação sucinta de parte da investigação agora considerada excelente pelo júri.
O trabalho indica que a informação semanal arrancou como «área estruturante no segmento nocturno» dos canais generalistas após a abertura aos privados mas «foi perdendo espaço a partir de finais dos anos 90». Hoje quase não existe.
A classe política foi a mais privilegiada nos programas de debate e de grande entrevista, mas «nem todos tiveram o mesmo direito à palavra televisiva» pois «ministros, líderes partidários e os deputados mais conhecidos» foram os «donos dos plateaux». A classe política «foi sempre privilegiada, mesmo para discutir temáticas que extravasam a sua esfera de acção» − caso de uma edição de Esta Semana (SIC) sobre a crise do futebol português a cargo de três políticos (Bagão Félix, Silva Peneda e Oliveira Martins), exemplo que terá aberto caminho para a inflação de políticos alcandorados pela bola através da TV, de Valentim a Santana e Seara.
Segundo Felisbela Lopes, de 93 a 2003 a informação semanal manteve-se circunscrita à «elite do poder político» e «aos mesmos ‘confrades’». Quanto à RTP1, confirma-se o que intuitivamente sempre se soube: o «serviço público» procedeu à «legitimação do poder instituído», sem procurar a novidade e andando a reboque dos temas já sancionados pela esfera política.
A partir de 96 «o número de políticos diminui» na RTP1, o que coincide com a análise que fiz na época: durante a governação de Guterres a RTP eclipsou o debate político para favorecer o governo, que passeava as mensagens pelo telejornal. Isso contribuiu para se manter durante anos um forçado «estado de graça» que tantos comentaristas ingenuamente elogiaram. O debate só regressa após a fuga de Guterres. Entretanto, os generalistas privados acabaram com os programas de informação semanal, preferindo outros com maior poder de atracção de audiência.
Felisbela Lopes conclui que os programas de debate e de entrevista dos generalistas até 2003 «não foram espaços democráticos, antes desenharam palcos elitistas» para «os políticos mais conhecidos e com cargos de destaque». Desta forma, os canais generalistas «nunca reflectiram a opinião pública, antes a reconstruíram em torno dos mesmos ‘confrades’», assim ignorando «uma larga parte da população» e construindo «um espaço televisivo monolítico, pouco igualitário». Daí resultando, digo eu, mais uma necessidade da sociedade civil na Dois.
Espero que este trabalho seja publicado em breve, pelo retrato que traça da informação não diária nos canais generalistas, bastante diferente dos mitos e bazófias da autopropaganda.
Entretanto, de 2003 para cá, acentuou-se a desertificação da informação semanal especializada nos generalistas. A desculpa foi a existência do cabo. Ora, os canais temáticos não anulam a obrigação dos generalistas em cumprirem o serviço a que estão obrigados − não anula a obrigação de serem... generalistas.
Nos últimos anos, alteraram-se significativamente os parâmetros da informação generalista. Comentário e reportagem longa passaram para o seio dos noticiários. Na SIC semanalmente e na TVI e RTP1 irregularmente, as reportagens com cerca de meia hora transformaram-se em apêndice do noticiário. Na RTP1, os comentadores do bloco central Marcelo e Vitorino estão colados ao Telejornal; a TVI prefere os seus dentro do Jornal Nacional em diálogo com o apresentador. A SIC, mais parcimoniosa no comentário, reservados aos seus jornalistas chefes, mantém nesse domínio um padrão mais «europeu».
Com estas alterações, os generalistas evitam o novo «horror» dos espaços de informação semanais, agora avaliados apenas pela audiência e ignorando-se o seu prestígio ou notoriedade. Mas, como já tenho referido, a TV portuguesa nestas tendências, dada a pequenez do mercado, anda à frente de outras televisões. Em todo o lado, os generalistas tenderão a perder a maior parte dos programas de jornalismo «à antiga». É o caso do programa de reportagem Nightline, na ABC.
Em Novembro, ao fim de 25 anos, o programa de Ted Koppel terminou, com o mesmo rigor e entrega aos assuntos. Ao contrário dos apresentadores que, lá como cá, se entregam ao seu próprio louvor, Koppel, um dos mais respeitados jornalistas televisivos da América, apresentou a última emissão, ao fim dum quarto de século, como se fosse a primeira, sem mesmo referir o fim do programa. Enquanto isso, o novo apresentador principal da NBC, Brian Williams, dedicava tempo de antena e um DVD a promover o seu próprio trabalho durante o Katrina − e a mostrar as suas emoções, como se precisássemos delas para ficarmos informados. Koppel nunca vendeu emoções próprias, apenas mostrava factos pelo seu ponto de vista.
O fim de Nightline ocorre quando em Portugal já nem nos recordamos de programas autónomos de informação e debate na TV generalista. O único é o Prós e Contras, que tem servido nos últimos meses a mesma função que Felisbela Lopes encontrou na RTP dos anos de 1993-2003: o Prós e Contras é um mostruário de ministros. Sempre que um ministro precisa de debitar mensagem, organiza-se um Prós e Contras para ele. Claro, claro, está lá o contraditório, mas esse é o preço da evolução dos tempos. O programa serve a função de sempre do «serviço público»: o governo paga, o governo tem.
Nas últimas semanas verifica-se, entretanto, como é irónico que os canais que acabaram com os seus programas semanais de informação obtenham agora fantásticas audiências com os debates presidenciais. A audiência nunca esteve abaixo dos 10%, ou um milhão de espectadores, e chegou a uns incríveis 18,3% no debate Alegre-Soares (TVI). A análise minuto a minuto dos debates mostra que o interesse dos espectadores não esmorece: em quase todos a audiência no final esteve próximo do que fora no início.
Este facto confirma a expectativa em torno das presidenciais, mas antes disso prova que o interesse dos espectadores dos canais generalistas em verdadeiros programas de informação e debate não se reduz aos telejornais.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Falar de Blogues com Pacheco Pereira, e mais qualquer coisa (Act I)

Do Geração Rasca

Sexta-feira, Dezembro 09, 2005

Desta vez tinha preparado um programa diferente. Levei em linha de conta que no dia seguinte seria feriado, logo, o dia do colóquio era como se calhasse numa espécie de 6ª feira por empréstimo, e apesar de também não o ser, o feriado era como se fosse um domingo, e logo a seguir era outra vez 6ª feira. Isto parece confuso à primeira leitura, mas não há trabalhador português que não me entenda. É por isso que defendo que se devem manter todos os feriados, sejam eles laicos ou religiosos… e mesmo todos, são sempre poucos.

Voltando ao que interessa, sou obrigado a confessar que, por vários motivos, me encontrava um pouco inquieto com esta conferência.

Em primeiro lugar, tinha a perfeita consciência que não teria muitas oportunidades na vida de estar assim tão perto de uma celebridade como Pacheco Pereira. Tirando o Mário Soares, que não conta, porque com aquela idade toda já teve tempo de sobra para estar perto de todos os portugueses, já nem me lembrava da última vez que tinha estado assim tão perto de um notável. Tive alguns professores notáveis, outros “notáveis”, e outros ainda duplamente notáveis, mas o facto de ter tido de pagar propinas para me darem aulas colocava-os, de todo, fora deste âmbito da notoriedade. Além do mais, se não podia ser com Umberto Eco nem com Alvin Toffler, então Pacheco Pereira teria mesmo de servir. Sempre estava um pouco mais à mão.

Em segundo lugar, estava programado conhecer durante o evento na Almedina, dois elementos do «Geração Rasca» que ainda não conhecia pessoalmente, o Pedro Oliveira e o Bruno Ferreira.

Em terceiro lugar, consegui convencer a Cristina (a minha "mais que tudo") a acompanhar-me ao colóquio. Aproveitei o facto dela trabalhar perto do local, e claro, tive de utilizar outros engodos: jantar fora, beber uns copos e um "pezinho de dança noutro lugar que não fosse o Lux. Mas era, de certeza, uma das minhas últimas oportunidades para a convencer que um “blog” não é uma onomatopeia que expressa uma súbita indisposição gástrica, originada por uma mistura alcoólica menos bem conseguida. Todavia, já me tinha mentalizado que iria deixar esta subtil tarefa pedagógica para Pacheco Pereira.

Combinei com todos lá estar às 18:45h, mas consegui chegar 15 minutos mais cedo. Estava a meio do primeiro cigarro à porta do Atrium Saldanha quando apareceu a Cristina. Como ainda tínhamos algum tempo, fomos entrando e dirigimo-nos até o rés-do-chão, onde estão as "esplanadas". Pela música ambiente, iríamos ter direito a beber um "cafezinho" com o som do piano como pano de fundo. Virei-me para a Cristina e disse-lhe, “Da última vez que cá estive também estava cá este pianista". Ela olhou para o local do piano, olhou de seguida para mim e disse-me que não era um pianista, mas sim uma pianista. Eu sei que sou um bocado distraido, mas não valia a pena gastar o meu latim com um pormenor tão insignificante. Senão vejamos: havia um piano; alguém tocava piano enquanto esperávamos sentados a beber qualquer coisa. O que interessava saber se era um pianista ou uma pianista? Mais um bocadinho e ainda me dizia que aquilo não era um piano e que era um órgão. As mulheres dão demasiada importância aos pequenos detalhes.

Chegados ao rés-do-chão, parámos junto das "esplanadas" e depois de uma ligeira observação, acabou por optar por uma mesa [só para dois] mais recatada, encostada a uma coluna. Não achei mal, mas lembrei-me que poderia chegar o Pedro ou o Bruno e os lugares naquela mesa não seriam suficientes. Mas naquele momento, isso era um pormenor sem qualquer relevância.

Como manda a praxe, e como o serviço de mesa parecia não existir [self-service], sentou-se e disse-me que queria um café. Como manda a praxe, nem me cheguei a sentar e fui buscar o tal de café, e uma Super Bock Green para a minha pessoa.

Conhecia a melodia que a tal de pianista estava a tocar, mas custou-me a associar à música original. Acabámos por descobrir que estava a tocar a Sodade da Cesária Évora, mas o som do piano dava-lhe uma entoação bastante mais… ocidental.

Sentei-me a beber a dita Green num copo de plástico [odeio beber em copos de plástico] e a esfumaçar mais um cigarro. Conversa de trabalho para aqui, conversa de compras de Natal para ali, quando olhei para as horas já só faltavam quinze minutos para as sete. Segurei no telemóvel, procurei o número do Pedro [que me tinha enviado por e-mail no dia anterior] e liguei. “Está? Pedro Oliveira? É o André.” Ele disse-me que estava um pouco atrasado, mas que mais cinco minutos, menos minuto, estaria por ali. Pedi-lhe então, que me ligasse quando chegasse.

Quando já só faltavam cerca de dez minutos para o início do colóquio, sugeri que talvez fosse melhor irmos subindo, para ver se arranjávamos lugares sentados na sala. Quando chegámos à entrada, o ambiente pareceu-me muito calmo. Momento raro [único]… senti-me relativamente grato pelo Benfica estar a jogar na liga dos campeões. Recebi nessa altura uma chamada no telemóvel, olhei para o ecrã, era o Pedro. “Está, Pedro, já chegaste?” Ele respondeu afirmativamente e que se encontrava naquele preciso momento à porta da Almedina. Sem pensar, ao mesmo tempo que lhe respondia que também me encontrava no mesmo local, notei que o meu telemóvel parecia ter adquirido subitamente uma nova propriedade, o soround. Pois… claro que parecia, estávamos os dois quase frente a frente, mas de costas voltadas, a falar ao telemóvel. Quando nos apercebemos da situação, rimo-nos, e sem mais palavras desligámos os nossos telemóveis. Cumprimentos à parte e consumadas as já tradicionais apresentações, breves, devido ao aproximar hora, avançamos pela Almedina adentro, em passo rápido, na direcção da sala de conferências.

Afinal, e ao contrário do que pareceia à entrada, estava muita gente para assistir ao colóquio, e a grande maioria era do sexo feminino. Não restava qualquer dúvida que era dia de futebol. Pelo caminho cruzamo-nos com José Carlos Abrantes e Pacheco Pereira que pareciam estar a trocar algumas impressões de cariz altamente subversivo num recanto da livraria. “Traumas do Salazarismo”, pensei eu para com os meus botões. Ainda considerei ir dizer um “olá” ao moderador do colóquio mas teria sido indelicado ir interromper uma conversa subversiva e a prioridade era, agora, arranjar três lugares vagos e posicionar-me adequadamente de forma a poder escrever para o «GR» a minha versão realística dos acontecimentos.

Havia um aglomerado de gente logo à entrada da sala, por isso, ficámos logo bloqueados e nem conseguimos entrar. Como me tinha acontecido algo de similar da última vez, disse à Cristina e ao Pedro para virem atrás de mim e embora nunca tenha tido nenhum problema com a lei, contornámos toda a parte jurídica da livraria e levei-os por um outro caminho que dava acesso a uma segunda entrada [mais escondida] na sala.

Chegados ao fundo do corredor, quando olhei para a sala, deparei logo com o Professor Rogério Santos sentado na primeira fila de cadeiras. O Professor olhou para mim, e eu acenei-lhe de imediato com a cabeça, num sempre conveniente respeitoso cumprimento. O Professor correspondeu e sorriu. Eu também sorri… também porque já estava a ver parte da minha estória ali, a um passo. Cada vez que alguém utilizasse a expressão “blogger” o Professor Rogério iria reagir de alguma forma, está-lhe no sangue. Mas como desta vez o Professor não fazia parte do painel, fiquei com curiosidade em saber de que forma se processaria, desta feita, a sua reacção, por assim dizer, pavloviana. Por falar em curiosidade, a Cristina, mal reparou que eu tinha acabado de trocar uns discretos cumprimentos com o Professor Rogério, deu-me um ligeiro puxão numa pontinha da manga do meu casaco e, mal me virei, perguntou discretamente, “Quem é aquele senhor que cumprimentaste?” Depois de lhe explicar resumidamente quem era aquele senhor, comecei a minha busca pelos lugares sentados. Pareciam existir ainda alguns lugares vazios, mas cada vez que me aproximava de um, estava sempre algo em cima do assento a marcar o lugar: um casaquinho, uma malinha, um livrinho, um saquinho. Após a minha observação sumária [a sala é pequena], constatei que só existiriam três lugares disponíveis, mas os mesmo ficavam precisamente ao lado da mesa da conferência. Não me pareceu, de todo, adequado ir-me colocar num lugar tão visível. Para além do mais, tal posicionamento retirar-me-ia a perspectiva completa da sala. Acenei com a mão ao Pedro e à Cristina, dando-lhes sinal para esperarem por ali, e retirei-me rapidamente em direcção à área de leitura da Almedina. Pedi licença a um leitor de códigos civis [há malucos para tudo], perguntei-lhe se estava ocupada a cadeira vazia ao lado dele e, em consonância com a sua resposta, segurei na respectiva e transportei-a cuidadosamente [sem bater nas prateleira, nos livros, nem nas pessoas] até à Cristina. Repeti este ritual mais duas vezes, e ficamos os três sentados, mais ao menos ao meio da sala, do lado direito do "palanque", a tapar por completo a segunda entrada da sala. Se a montanha não vai a Maomé…

Desta vez tinha levado comigo um bloco e uma caneta, com a ideia de ir anotando algumas das reflexões do orador, ou a minha interpretação das suas cogitações. Contudo, dei comigo a pensar se não seria extremamente prejudicial para o meu conto dos acontecimentos andar a tirar anotações. É que é isso precisamente que os jornalistas fazem e as estórias deles raramente têm espírito. O meu raciocínio é abruptamente interrompido por um certo burburinho e reboliço que vinha do fundo da sala. Do meu lado direito, pela principal passagem, entravam José Carlos Abrantes e José Pacheco Pereira. Dirigiam-se vagarosamente para a mesa de conferências pois iam, à passagem, cumprimentando algumas pessoas que conheciam e que se encontravam sentadas no meio da audiência. Pousei o meu bloco em cima de uma pilha de livros que se encontrava no meu lado direito, ajeitei a minha cadeira de forma a ter a visão mais clara possivel de todos os acontecimentos que se iriam suceder, encostei-me ligeiramente para trás, cruzei os braços e fiz um ajustado ar atento. Como todos sabem, nestas coisas públicas, as aparências contam um bocado. :)

(continua...)

Inserido por André Carvalho às 21:56
6 Comments:

TEASER: Falar de Blogues com Pacheco Pereira (Director Cut)

4ª feira, 7 de Dezembro, 19h00/21h00, Almedina, Fórum Saldanha, Lisboa, Falar de Blogues III, piano, pianista, Cesária Évora, Sodade, product placement, Super Bock Green, café Nicola, Marlboro Light, Pacheco Pereira, intelectual, Filósofo, Ensaísta, muitas profissões, muitas coisas, ex-várias coisas, Abrupto, nem por isso, Estudos sobre o Comunismo, cadeiras, lugares, microfone, José Carlos Abrantes, e-mails's de amigas, malmequer, bemmequer, gosto ou não gosto de JPP, gosto ou não gosto de blogues, razão 134 para se gostar de Portugal, Rogério Santos, Indústrias Culturais, Cultura, T.S.Eliot, Mcluhan, o medium é a menssagem, ligações mediáticas, trajectos, dos mass-media para os blogues, dos self-media para os mass-media, agenda-setting, agenda própria, gosto e pronto, cultura de elite, cultura de massas, 140 e-mail's dia, solitário, simplicidade, links, egocentrismo, umbiguismo, Cunhal, Régio, credibilidade, bloggers e blogueiros, autor, editor, centro, espaço público, voz própria, erudição, poesia em latim, poesia, arte, leitor, audiências, metabloguismo, blogues temáticos, blogues políticos, poder e poder, instrumento individual de poder simbólico, elitismo, literatura, prazer, astronomia, sondas, Titã, Marcelo Rebelo de Sousa, eu não consigo falar de livros sem os ler, PT, fascismo, maoísmo, micro-causas, macro, Santana Lopes, Ota, Sítio do Não, Wikipédia, coleccionismos, selos, internet, pornografia, metalúrgico erótico, a pornografia antiga é um bom investimento, feiras e mercados, velharias, papeis, postais, Moscovo, Teerão, Marmeleira, muito mentiroso, anonimato, segredo profissional, polícias, juízes, jornalistas, pseudónimos, a escrita nos sítios mais bizarros, newsgroups, influência, memória, memória e mais memória, sem memória, Loures, Jerónimo de Sousa, SIC, debates, eu e a minha mulher (Cristina), Pedro Oliveira (Geração Rasca), faz toda a diferença, Bruno Ferreira (Geração Rasca), gravata cor de rosa, RAF (Ex-Blasfemo, Blue Lounge), imagens, gravações, fotografias, público feminino e blogues no feminino, hoje acordei assim, perguntas, respostas, perguntas por fazer, média burguesia ilustrada, o estranho ritual dos blogues que acabam mas que surgem com outras formas, Benfica, futebol, mamãs e filhinhas, livros, muitos livros, prendas de natal, jantar, Suzana, A Viúva, bacalhau com natas, picanha, sangria e caipiroskas, conversas privadas, conversas de blogues, 24 de Julho, noite, Lisboa, 4hoo, dormir, feriado, early morning. Discutir, conversar, falar, ou simplesmente, dizer.

Texto de André Carvalho, publicado no Geração Rasca

sexta-feira, dezembro 09, 2005

REDE FERROVIÁRIA PORTUGUESA DE BITOLA EUROPEIA

Este texto foi enviado por António Brotas com pedido de divulgação

Este texto, que poderá continuar, foi terminado hoje para poder servir de elemento de comparação aos projectos que o Governo vai apresentar no próximo dia 13 .Agradeço a sua divulgação mesmo que parcial e os comentários que lhe possam ser feitos.

António Brotas



CONTRIBUTO PARA O ESTUDO DA FUTURA REDE FERROVIÁRIA PORTUGUESA DE BITOLA EUROPEIA


Enquadramento
Considera-se que a localização do NAL (Novo Aeroporto de Lisboa) e a definição dos traçados das novas linhas ferroviárias são assuntos muito ligados.

Considera-se que Portugal necessita, em absoluto, de construir uma rede ferroviária de bitola europeia (standard) para não ficar a breve/médio prazo uma ilha ferroviária.

Considera-se que esta nova rede terá de coexistir durante um largo periodo (provavelmente superior a três décadas) com a actual rêde de bitola ibérica.

As linhas da nova rede não deverão ser todas projectadas para permitir a circulação de comboios TGV com velocidades da ordem dos 300 km/h. Algumas destinar-se-ão, unicamente, a comboios com velocidades muito mais baixas.

A sigla TGV, usada em termos jornalísticos para designar todas as novas linhas de bitola europeia, tem sido naturalmente entendida por parte do público como dizendo respeito a linhas destinadas só a comboios com muito alta velocidade. Convém desfazer este equívico. Neste trabalho são abordados os problemas de todas as novas linhas de bitola europeia (e é referida a melhoria de algumas antigas) .

1- Algumas decisões recentes

A avaliar pelas notícias aparecidas nos jornais o governo adoptou recentemente 5 medidas acertadas relacionadas com os Caminhos de Ferro.

A saber:

1- Pos de lado o mirabolante projecto de construir uma linha de Lisboa ao Porto

com troços de bitóla ibérica e troços de bitola europeia ligados por intercambiadores.
Confirmou o que tinha sido acordado com a Espanha na Cimeira da Figueira da Figueira da Foz de há dois anos no que diz respeito aos pontos de ligação na fronteira das duas redes ferroviárias. (Isto é, aceitou definitivamente o projecto do "pi" deitado e pos de lado o do "T" deitado) .
Aceitou que a linha TGV para Badajoz seria mista (no sentido de poder também ser usada por comboios de mercadorias) tal como os espanhois já o tinham aceite para a linha de Badajoz a Madrid.
Admitiu pensar em alternativaa à ponte ferroviária Barreiro para a travessia ferroviária do Tejo
Aceitou dar maior, ou pelo menos igual prioridada, à linha do TGV para Badajoz relativamente à linha TGV para o Porto.
Numa versão mais completa deste trabalho poderão, eventualmente, ser incluidas secções com o relato dos debates, nalguns casos longos, que antecederam estas decisões. Não vamos aqui perder tempo com eles.



2- Uma decisão imediata

No momento presente a decisão que terá de ser tomada a muito curto prazo é a do modo de travessia do Tejo da linha de Lisboa a Badajoz.

Excluidas as hipóteses a por liminarmente de lado, as hipóteses a considerar são três que vamos designar por três letras:

A ˆ A da travessia do Tejo ser um pouco acima de Vila Franca de Xira.

B - A da travessia do Tejo antes de Vila Franca, entre Alverca e Alhanda.

C ˆ A ponte ferroviária das Olaias ao Barreiro.

Numa versão mais completa deste trabalho poderá ser incluida uma nota com a analise de algumas das hipóteses a por liminarmente de lado, nomeadamente: a do comboio vindo de Badajoz ir ao Entroncamento para recolher os passageiros vindos do Centro e do Norte proposta pelo Professor Manuel Porto, de Coimbra; a do mesmo comboio atravessar o Tejo acima da Azambuja para passar perto da Ota, proposta pela CCRLVT; a solução mista, tunel-ponte, no estuário do Tejo proposta pelo Arquitecto Tudela.

O que pretendo aqui sublinhar, é que todo o atraso na escolha de uma das soluções A, B ou C se traduz por um atraso final de todo o nosso projecto ferroviário . (Em linguagem do PERT esta escolha está no caminho crítico das decisões e operações a reaslizar).

Relacionado com a travessia do Tejo, há o problema da futura estação terminal do TGV vindo de Badajoz.

Assim, a decisão urgente e imediata a tomar é a da escolha conjunta do modo de travessia do Tejo e da localização a futura estação dos TGV.

Esta escolha exige estudos prévios de Engenharia, Geologia e ambientais, que permitam quantificar o custo das obras e avaliar as vantagens e inconvenientes das diferentes opções,

Enquanto estes estudos não estiverem feitos e esta decisão tomada, estaremos, simplesmente, a atrasar-nos. Ou, então, a tentar impor soluções avançadas sem conhecer as soluções mais convenientes que as deviam anteceder.

3- As implicações das três opções A, B e C.

Vamos analisar as implicações destas três opções relativamente aos problemas:
trajecto para Badajoz;
trajecto para o Porto;
trajecto para o Algarve;
acesso ferroviário a um aeroporto na Ota.
Só muito abreviadamente nos referiremos às dificuldades da efectivação destas três opções sobre as quais não temos neste momento elementos suficientes.

Aceitamos os seguintes pressupostos:
A linha para Badajoz deverá poder ser usada por comboios TGV que, para competir com o avião, deverão poder atingir velocidades da ordem dos 300 km/h embora não necessáriamente no troço inicial.
A estação terminal dos TGV para Badajoz deverá igualmente servir para os futuros TGV para o Porto e para o Algarve e para as navetes ferroviárias para o futuro NAL.
Esta estação deverá ser servida pelo metro e coexistir com uma estação da rede de bitola ibérica ou, pelo menos, ter a ela um muito facil acesso.
Opção A: Depois da travessia do Tejo o trajecto para Badajoz não parece oferecer dificuldades de maior;

o TGV para o Porto poderá seguir um trajecto mais ou menos semelhante ao da actual linha do Norte, eventualmente com a passagem a Norte de Santarém, ou poderá inflectir perto de Vila Nova da Rainha para ir passar perto da Ota e depois passar entre a Serra de Montejunto e a Serra dos Candieiros.

Um outro trajecto possivel do TGV para o Porto, possivelmente o mais económico e facil de construir , é o de seguir pela margem esquerda do Tejo até perto da Chamusca para ai atravessar o Tejo na direcção do Entroncamento.

A linha para o Algarve não tem dificuldades de maior embora seja algo alongada com a passagem acima de Vila Franca.

O acesso ao aeroporto poderá ser feito pelo TGV para o Porto (solução que não parece aconselhavel) se for adoptada a sua passagem perto da Ota, ou por um ramal especial destinado a uma navete.

A principal dificuldade desta opção A é a passagem por Alhandra e Vila Franca de Xira onde a actual linha do Norte tem só duas linhas, já muito sobrecarregadas. Será absolutamente necessário passar a 4 vias que não poderão ser todas à superfície, pelo que duas terão de ser em tunel.

Opção B. Relativamente à opção anterior, os trajectos para Badajoz e para o Algarve poderão ser ligeiramente beneficiados. O mesmo se passa com o trajecto do TGV para o Porto pela margem Sul até perto da Chamusca.

A navete para a Ota e a eventualida do retorno do TGV para o Porto à margem Norte depois de ultrapassar Vila Franca, exigem uma nova ponte perto de Vila Nova da Rainha que, se for considerada necessária, não parece ser muito dispendiosa.

A principal dificuldade desta opção é a travessia do Tejo antes de Alhandra poder levantar problemas de geologia e problemas ambientais relacionados com a Reserva Natural do Tejo. Esta Reserva pode, no entanto, ser contornada pelo Norte.

Opção C. Esta opção, provavelmente, a mais cara, demorada e dificil de construir, exige estudos aprofundados que terão de ser feitos. O seu impacto urbanistico em Lisboa e no Barreiro é muito grande. As desvantagens para o Porto de Lisboa e navegação do Tejo podem ser grandes. O problema da escolha da futura estação ferroviária terminal só agora começou a ser referido.

As ligações a Badajoz, ao Algarve e a um eventual aeroporto na margem Sul são francamente favorecidas com esta ponte. Mas a sua utilização para o TGV para o Porto quase invalida as vantagens da alta velocidade. A ligação ao Aeroporto na Ota também é complicada.

Estes inconvenientes fazem com que, no caso de ser feita esta ponte, se continue a pensar numa saida de Lisboa do TGV para o Porto pela margem Norte. Mas, se o problema desta saida for resolvido, não se justifica a ponte para o Barreiro.



4 ˆ A estação terminal dos TGV

O local ideal para uma futura estação ferroviária central de Lisboa era na antiga gare de triagem da CP em Beirolas. Mas a CP vendeu esta espaço à EXPO que construiu nele uma urbanização. Foi assim necessário construir para servir a Expo-98 a Gare do Oriente, que não tem características de estação terminal

No caso das soluções A e B acima referidas, os TGV para Badajoz e para o Porto deverão seguir paralelamente ao Tejo junto à IC2 . A estação terminal ideal seria em Beirolas. Excluida esta hipótese, pode-se pensar numa estação perto de Sacavém junto ao Tejo, porque é facil fazer lá chegar o metro (se não for feito o anunciado prolongamente até ao Aeroporto da Portela que convirá repensar) e porque é, possivelmente, o ponto com melhor acesso de toda a Área Metropolitana de Lisboa.

A dificuldade está em que já existe a Gare do Oriente e não parecer indicado que os comboios de bitola ibérica parem em duas estações tão próximas.

Assim, embora a Gare do Oriente só tenha 8 vias e não permita a inversão de marcha dos comboios, podem ser procuradas medidas opercionais para, sem custos excessivos , fazer dela uma estação terminal satisfatória para os TGV vindos de fora de Lisboa.

Estas medidas poderão ser as seguintes:

- Reserva de duas das vias da Gare do Oriente para comboios de bitola europeia, ou uso de três carris para permitir a sua utilização por comboios com as duas bitolas.

- Os comboios TGV chegados à Gare do Oriente não invertem a marcha, mas

seguem no mesmo sentido, depois da descida dos passageiros, até um desvio paralelo à linha onde poderão estacionar e inverter a marcha para poder, quando desejado, voltar a entrar na Gare do Oriente em sentido contrário. [ Como não vi esta ideia em parte alguma referida, não autorizo ninguém a utiliza-la e simultaneamente dela tentar tirar proveitos económicos sem o negociar comigo. A utilização da ideia sem intuitos económicos é no entanto livre.]

5 ˆ As ligações ao aeroporto da Ota

As ligações ferroviárias a um eventual aeroporto na margem Sul ficam facilitadas depois de assegurada a travessia do Tejo, sobretudo no caso das opções C e B.

A ligação a um aeroporto na Ota continua dificil salvo no caso da opção A.

Em qualquer caso, a ligação ferroviária terá de ser assegurada por navetes com uma frequencia rápida, que poderão utilizar parte das linhas TGV, mas que, na proximidade do aeroporto, deverão ter um ramal próprio.

Os próprios comboios TGV serem usados para servir o aeroporto não parece muito aconselhavel. A exigência feita em Portugal de, no traçado de uma linha TGV saida de uma cidade ser prevista a paragem num aeroporto próximo, parece ser única.

.

No caso da Ota, a exigência do TGV para o Porto lá parar, complica singularmente a construção de um aeroporto já de si bastante complicado.



6- As prioridades

Há que distinguir as prioridades a atribuir às obras, das prioridades a atribuir aos estudos.

6-1- A linha para Badajoz

As obras não podem ser iniciadas sem projectos de execução, que exigem, normalmente, estudos e decisões prévias. Do anteriormente exposto decorre que o projecto ferroviário que primeiro podemos iniciar (depois de decidida a travessia do Tejo) é o da linha para Badajoz incluindo a sua estação terminal.

Não nos atrasarmos neste projecto que é, assim, a nossa primeira grande prioridade.

Se o governo entender que tem de fazer apelo a consultores e empresas estrangeiras para fazer este projecto, atrevo-me a aconselhar que procure consultores e empresas espanholas. São eles que têm a informação e a experiência do que se está a ser feito em Espanha e estão tão interessados como nós em que tudo corra pelo melhor. A linha de Lisboa a Badajoz é só um terço da linha de Lisboa a Madrid.



6-2- O TGV para o Porto e as linhas do Norte

O TGV para o Porto deve ser estudado logo que possivel. Mas não podemos aprovar projectos definitivos sem saber como é que os comboios depois entram na cidade. O projecto definitivo do TGV para o Porto tem, assim, de depender da travessia do Tejo e do projecto do TGV para Badajoz, a que terá de ser dada alguma prioridade.

O projecto das novas linhas a norte de Pombal é, no entanto, totalmente independente da travessia do Tejo. É prematuro, neste momento, discutir a prioridade a dar à construção destas novas linhas, mas uma coisa é a prioridade a dar à construção das linhas e outra a prioridade a dar ao estudo dos seuaprojectos.

O Ministério anunciou ter 50 milhões de euros para fazer estudos em 2006. É muito dinheiro. As novas linhas TGV são linhas estratégicas. São as linhas que foram acordadas com Espanha e terão de ser feitas. Fazer depender o estudo dos seus projectos de engenharia e, em particular, dos seus traçados, de estudos de mercado ainda por fazer fazer, não tem qualquer sentido. (Estes estudos poderão ter algum interesse para definir o regimens de exploração, mas não podem ser usados para por em causa a construção das linhas e atrasar o estudo dos seus projectos).

As verbas agora disponiveis para estudos, devem urgentemente ser usadas para o estudo dos projectos das novas linhas e não para eternos estudos de mercado. Daqui a 2 ou 3 anos, quando tivermos projectos que nos permitam quantificar os custos, poderemos, então, discutir a prioridada a dar à construção das linhas.
Os projectos do Norte que temos de estudar
Os projectos do Norte que temos de estudar são:
O da linha de Vilar Formoso a Aveiro incluindo a sua ligação ao porto de Aveiro. Os espanhois já fizeram o estudo do traçado e dos impactos ambientais da linha de Salamanca à fronteira. Era muito importante que Portugal, na próxima cimeira ibérica, daqui a dois anos, pudesse apresentar um estudo semelhante para esta linha.
Interessa fazer desde já o estudo do prolongamento, de Aveiro até ao Porto (ou até Gaia) da linha anterior . Este prolongamento, a integrar mais tarde no TGV do Porto para Lisboa, pode permitir, em conjugação com a linha de Aveiro a Vilar Formoso, a rapida ligação do Norte de Portugal com à rede interbnacional de bitola europeia. Pode, além disso, contribuir para a melhoria significativa dos deslocamentos internos na Área Metropolitana do Porto
Devemos, o mais rapidamente possivel, iniciar o estudo da linha do Porto a Vigo, que do lado espanhol será prolongada até à Corunha. As dificuldades geográficas e politicas desta linha são muitas e é importante que comecemos a olhar para elas sem perda de tempo.
A ligação entre as linhas TGV das duas margens do Douro terá, também, obviamente, de ser assegurada. Esta ligação permite ver um desenho ferroviário estratégico conjunto para a Galiza e para o Norte de Portugal.
O início destes estudos, pode contribuir para que o desenvolvimento de uma uma "mentalidade ferroviária" que manifestamente ainda não existe. Isto é, para que os autarcas e as populações, em vez de pensarem prioritariamente em urbanizações, depois nas estradas, e só depois no Caminho de Ferro, comecem prioritáriamente a pensar nas novas linhas ferroviárias que vão ter uma imensa influência na sua vida.

.
SINTESE
1-A primeira grande e urgente decisão a tomar é a da travessia do Tejo e escolha da estação terminal do TGV para Badajoz. Os estudos de Engenharia, Geologia e ambientais para escolher entre as três opoções A, B e C atrás referidas, ainda não foram feitos. Estes estudos são assim a primeira grande prioridade.

( A exclusão não fundamentada de uma das hipóteses referidas, como parece ser neste momento a da hipótese B, deixará inevitavelmente a suspeita de que ela poderá ser a melhor hipótese e de que não foi estudada para favorecer outras).

2-Decidida a travessia do Tejo, há que ultimar o mais rapidamente possivel o projecto da linha para Badajoz e avançar com as obras. Aconselha-se, neste assunto, a procura da colaboração, ou pelo menos o conselho, de empresas e peritos espanhois, mais experientes do que nós, e igualmente interessados em que tudo corra pelo melhor.

3-Os recursos do Ministério para estudos devem, desde já, ser utilizados para estudar os traçados das linhas de bitola europeia do Norte do país já acordadas com a Espanha, de modo a que os seus traçados definitivos, ou pelo menos parte deles, possam ser apresentados na próxima cimeira ibérica. A prioridade a dar à construção das linhas pode ser remetida para mais tarde. O início destes estudos pode contribuir para que se crie a "mentalidade ferroviária" a que me referi.

4-Logo que definida a linha para Badajoz , deve ser dada prioridada à definição do traçado do TGV para o Porto. As duas linhas devem ter a mesma estação terminal e usar o mesmo troço à saida de Lisboa. Este troço deve, igualmente, ser usado para a necessária ligação ferroviària ao NAL Mas, perto do aeroporto, esta ligação deve ter um ramal próprio. A imposição do TGV para o Porto passar perto da Ota deve ser posta de lado.

Adicionalmente, há outros estudos a fazer com características mais locais: o da linha de bitola europeia para Sines, que deve ser prevista só para mercadorias, sendo portanto uma linha de muito baixa velocidade. Na remodelação em curso da linha da Beira Baixa deviam ser usadas travessas de dupla fixação para um dia se poder mudar com facilidade a sua bitola para a bitola europeia. Esta linha será muito importante para os comboios de mercadorias do Sul do país destinados a França, não passarem por Madrid e nem sobrecarregarem o TGV para o Porto. As actuais linhas de bitola europeia deverão ser mantidas em funcionamento durante bastante tempo e, parte delas, devem ser modernizadas, como é o caso da linha do Oeste.

Este texto, que poderá continuar, e é agora terminado para poder servir de elemento de comparação aos projectos ferroviários que o Governo irá apresentar no próximo dia 13, corresponde, nalguma medida, ao interesse que o Ministro Mário Lino me disse ter pelos meus textos e à promessa que me fez de me convidar para as reuniões do Ministério em que estes assuntos fossem discutidos .

Agradeço a sua divulgação, mesmo que parcial, e os comentários que lhe sejam feitos. (8 de Dezembro de 2005)

António Brotas brotas@fisica.ist.utl.pt