segunda-feira, dezembro 19, 2005

AS CADEIRAS DO PODER Eduardo Cintra Torres Publico 18-12-2005

Felisbela Lopes doutorou-se segunda-feira em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho com um estudo sobre a informação não-diária dos canais generalistas portugueses de 1993 a 2003. A tese prossegue o trabalho anterior sobre O Telejornal e o Serviço Público (MinervaCoimbra, 1999). Numa comunicação ao 4º Congresso da SOPCOM, realizado em Outubro em Aveiro, Felisbela Lopes fez uma apresentação sucinta de parte da investigação agora considerada excelente pelo júri.
O trabalho indica que a informação semanal arrancou como «área estruturante no segmento nocturno» dos canais generalistas após a abertura aos privados mas «foi perdendo espaço a partir de finais dos anos 90». Hoje quase não existe.
A classe política foi a mais privilegiada nos programas de debate e de grande entrevista, mas «nem todos tiveram o mesmo direito à palavra televisiva» pois «ministros, líderes partidários e os deputados mais conhecidos» foram os «donos dos plateaux». A classe política «foi sempre privilegiada, mesmo para discutir temáticas que extravasam a sua esfera de acção» − caso de uma edição de Esta Semana (SIC) sobre a crise do futebol português a cargo de três políticos (Bagão Félix, Silva Peneda e Oliveira Martins), exemplo que terá aberto caminho para a inflação de políticos alcandorados pela bola através da TV, de Valentim a Santana e Seara.
Segundo Felisbela Lopes, de 93 a 2003 a informação semanal manteve-se circunscrita à «elite do poder político» e «aos mesmos ‘confrades’». Quanto à RTP1, confirma-se o que intuitivamente sempre se soube: o «serviço público» procedeu à «legitimação do poder instituído», sem procurar a novidade e andando a reboque dos temas já sancionados pela esfera política.
A partir de 96 «o número de políticos diminui» na RTP1, o que coincide com a análise que fiz na época: durante a governação de Guterres a RTP eclipsou o debate político para favorecer o governo, que passeava as mensagens pelo telejornal. Isso contribuiu para se manter durante anos um forçado «estado de graça» que tantos comentaristas ingenuamente elogiaram. O debate só regressa após a fuga de Guterres. Entretanto, os generalistas privados acabaram com os programas de informação semanal, preferindo outros com maior poder de atracção de audiência.
Felisbela Lopes conclui que os programas de debate e de entrevista dos generalistas até 2003 «não foram espaços democráticos, antes desenharam palcos elitistas» para «os políticos mais conhecidos e com cargos de destaque». Desta forma, os canais generalistas «nunca reflectiram a opinião pública, antes a reconstruíram em torno dos mesmos ‘confrades’», assim ignorando «uma larga parte da população» e construindo «um espaço televisivo monolítico, pouco igualitário». Daí resultando, digo eu, mais uma necessidade da sociedade civil na Dois.
Espero que este trabalho seja publicado em breve, pelo retrato que traça da informação não diária nos canais generalistas, bastante diferente dos mitos e bazófias da autopropaganda.
Entretanto, de 2003 para cá, acentuou-se a desertificação da informação semanal especializada nos generalistas. A desculpa foi a existência do cabo. Ora, os canais temáticos não anulam a obrigação dos generalistas em cumprirem o serviço a que estão obrigados − não anula a obrigação de serem... generalistas.
Nos últimos anos, alteraram-se significativamente os parâmetros da informação generalista. Comentário e reportagem longa passaram para o seio dos noticiários. Na SIC semanalmente e na TVI e RTP1 irregularmente, as reportagens com cerca de meia hora transformaram-se em apêndice do noticiário. Na RTP1, os comentadores do bloco central Marcelo e Vitorino estão colados ao Telejornal; a TVI prefere os seus dentro do Jornal Nacional em diálogo com o apresentador. A SIC, mais parcimoniosa no comentário, reservados aos seus jornalistas chefes, mantém nesse domínio um padrão mais «europeu».
Com estas alterações, os generalistas evitam o novo «horror» dos espaços de informação semanais, agora avaliados apenas pela audiência e ignorando-se o seu prestígio ou notoriedade. Mas, como já tenho referido, a TV portuguesa nestas tendências, dada a pequenez do mercado, anda à frente de outras televisões. Em todo o lado, os generalistas tenderão a perder a maior parte dos programas de jornalismo «à antiga». É o caso do programa de reportagem Nightline, na ABC.
Em Novembro, ao fim de 25 anos, o programa de Ted Koppel terminou, com o mesmo rigor e entrega aos assuntos. Ao contrário dos apresentadores que, lá como cá, se entregam ao seu próprio louvor, Koppel, um dos mais respeitados jornalistas televisivos da América, apresentou a última emissão, ao fim dum quarto de século, como se fosse a primeira, sem mesmo referir o fim do programa. Enquanto isso, o novo apresentador principal da NBC, Brian Williams, dedicava tempo de antena e um DVD a promover o seu próprio trabalho durante o Katrina − e a mostrar as suas emoções, como se precisássemos delas para ficarmos informados. Koppel nunca vendeu emoções próprias, apenas mostrava factos pelo seu ponto de vista.
O fim de Nightline ocorre quando em Portugal já nem nos recordamos de programas autónomos de informação e debate na TV generalista. O único é o Prós e Contras, que tem servido nos últimos meses a mesma função que Felisbela Lopes encontrou na RTP dos anos de 1993-2003: o Prós e Contras é um mostruário de ministros. Sempre que um ministro precisa de debitar mensagem, organiza-se um Prós e Contras para ele. Claro, claro, está lá o contraditório, mas esse é o preço da evolução dos tempos. O programa serve a função de sempre do «serviço público»: o governo paga, o governo tem.
Nas últimas semanas verifica-se, entretanto, como é irónico que os canais que acabaram com os seus programas semanais de informação obtenham agora fantásticas audiências com os debates presidenciais. A audiência nunca esteve abaixo dos 10%, ou um milhão de espectadores, e chegou a uns incríveis 18,3% no debate Alegre-Soares (TVI). A análise minuto a minuto dos debates mostra que o interesse dos espectadores não esmorece: em quase todos a audiência no final esteve próximo do que fora no início.
Este facto confirma a expectativa em torno das presidenciais, mas antes disso prova que o interesse dos espectadores dos canais generalistas em verdadeiros programas de informação e debate não se reduz aos telejornais.