segunda-feira, fevereiro 13, 2006

PROVEDOR DOS LEITORES Crónica de 13 de Fevereiro , no DN

Da peça ao título
José Carlos Abrantes

“Começo por, de forma simples, mas sincera, endereçar, a si e ao jornal, felicitações pelo trabalho que têm realizado.” Felizmente, neste caso, a crítica ao jornal é compatível com uma palavra de estímulo aos que o fazem no quotidiano. O leitor Filipe Alves assinala depois o que considera “um equívoco da edição do dia 16 de Janeiro. Na capa, chama-se a atenção para uma entrevista com o reitor da Universidade de Coimbra, com destaque para uma sua afirmação (e cito): "Há 700 cursos superiores a mais". A própria entrevista, na página 20, é encabeçada pelo título "Existem 700 cursos em excesso em Portugal". Acontece que, no corpo da entrevista, lêm-se as seguintes afirmações do senhor reitor: "é absolutamente necessário avançar para uma definição nacional da oferta educativa, reduzindo para cerca de 100 as actuais designações de cursos de licenciatura existentes nas universidades portuguesas.»
Ou seja, o que o reitor contesta é, não a existência de muitos cursos, mas a existência de múltiplas designações para cursos iguais ou semelhantes, como, de resto, percebe o jornalista, como se vê
pela pergunta que lhe faz de seguida: "Quer dizer que existem 700 designações de cursos em excesso?» Ora, isto contraria a afirmação destacada no título e na capa, com a agravante, neste caso, de, ao usarem-se aspas, se atribuir ao reitor uma afirmação que não coincide com o que ele efectivamente disse.”
A peça citada é da autoria de João Figueira. Importa dizer que o trabalho do jornalista ocupa duas páginas inteiras do jornal. Embora o Processo de Bolonha seja o centro da entrevista, outras informações são desenvolvidas de forma bastante viva. O provedor fez parte deste e-mail a João Figueira. O jornalista lembra “que a construção da Primeira Página escapa à responsabilidade do autor da entrevista.” (ver o texto quase completo no Bloco Notas). E, os argumentos que aduz giram à volta da ideia que os cursos se identificam com as suas designações: “uns e outras são indissociáveis, porque a coisa só existe enquanto tiver nome”. Outro argumento é avançado colocando-se a ênfase no conceito de “título interpretativo”. Os argumentos são partilhados pelo director, António José Teixeira: “É certo que o jornalista não participou na construção da primeira página. Mas estou totalmente de acordo com os argumentos do meu colega João Figueira.”
Especialistas da educação teriam reagido doutro modo. Solicitei a Pedro Lourtie, que foi director geral do Ensino Superior e também secretário de Estado, um comentário. “Eu tinha lido a peça e tinha tido a mesma reacção do leitor.” (...) “Diz o jornalista, formulando como perguntas, que as designações dão corpo e existência aos cursos e que o fim do excesso de designações acarreta a exterminação dos cursos nelas contidos. (Eu teria dito extinção, exterminação parece-me um pouco violento!)” E avança um exemplo no domínio da engenharia que mostra que, mesmo alterando-se as designações, não se alterariam as formações existentes. “Será isto extinguir cursos? Não me parece lógico”, escreve Pedro Lourtie. A responsabilidade do jornalista e da edição de primeira página é dar rigor ao leitor e não deixar escapar alguma imprecisão que possa induzir este em erro. E a interpretação não pode substituir, indiferentemente, uma palavra por outra. As aspas de primeira página também não ajudam ao rigor, como o leitor sublinha.
É verdade que os títulos de primeira página, segundo Adriano Duarte Rodrigues, são, por força do constrangimento resultante do grafismo dos jornais (corpo tipográfico, colunagem, número de linhas, redigidos numa linguagem telegráfica que implica o recurso sistemático a supressões, por exemplo, de verbos, de artigos, de nomes ou designações. Mas também não é menos certo que “nos termos da deontologia do jornalismo, a titulação deveria corresponder a um desígnio essencialmente informativo” (1). E, acabar com a pulverização das designações, não é sinónimo de acabar com a pulverização dos cursos. Ou, apropriando ainda a reflexão de Pedro Lourtie: “ Esta peça, só por si, não me parece que justifique grande escândalo. No entanto, poder-se-ão encontrar muitos outros exemplos em que o título é enganador, não chegando a ser exactamente falso, o que pode ser um tema para reflexão.”


BLOCO NOTAS
A resposta do jornalista
(...) Um título jornalístico é um campo textual construído de forma telegráfica que, quando não podendo dizer tudo, não deve contrariar nem ferir o sentido, o espírito e o alcance do texto que encabeça. Tendo em conta que a construção da Primeira Página escapa à responsabilidade do autor da entrevista aqui em causa, limitar-me-ei a falar sobre a matéria jornalística assinada por mim.
Creio que o título “Existem 700 cursos em excesso em Portugal”, escrito sem aspas, embora a frase seja retirada de uma resposta dada pelo Reitor da Universidade de Coimbra, responde aos requisitos essenciais referidos no ponto anterior. Isto é, o título jamais contraria, desvirtua ou sensacionaliza a ideia essencial do texto. É certo que a frase completa fala de “700 designações de cursos em excesso”, razão pela qual o leitor entende que há, aqui, um desvio jornalístico, face ao que é dito na entrevista. Mas não são as designações que dão corpo e existência aos cursos? O fim do excesso de designações não acarreta, consigo, a exterminação dos cursos nelas contidos? Ou seja, uns e outras são indissociáveis, porque a coisa só existe enquanto tiver nome, numa “tentativa desesperada de atrair novos públicos e novos estudantes”, segundo a explicação dada, umas linhas à frente, pelo mesmo reitor. Em momento algum, a meu ver, tal título põe em causa ou fere o conteúdo e alcance das afirmações do entrevistado.
Poder-se-ia dizer, por último, que o referido título caberá na categorização dos “títulos interpretativos”, de acordo com os princípios estipulados no manuais e literatura da especialidade.
Sem pretender acrescentar pontos novos ao debate, como se fugisse à questão colocada, gostaria, apesar de discordar da opinião expressa pelo leitor Filipe Moreira, de manifestar o meu grande apreço pelo reparo que fez, pois são leitores desta qualidade que o jornalismo português — e o DN em particular — precisam para saber que há olhares atentos a exigir-lhe todos os dias um melhor trabalho.

(1) ver Mário Mesquita, O quarto equívoco: O poder dos media na sociedade contemporânea, Coimbra, Minerva Coimbra, 2003, pág 260.

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