quarta-feira, abril 19, 2006

OS DIAS LOUCOS DO PREC Adelino Gomes

Texto da intervenção de Adelino Gomes (fora os improvisos), na apresentação de
OS DIAS LOUCOS DO PREC
ADELINO GOMES
18.4.2006

Juntaram-se neste lugar, esta tarde, algumas das mais altas figuras da vida militar e política de Portugal, em 1975.
Que tenham vindo, a nosso convite, é uma honra que não cessaremos, nós, os autores, de vos agradecer.
Mas que o tenham podido e querido fazer juntos, passado este longo tempo e todas as suas vicissitudes, ultrapassa, de longe, o plano — estimável mas limitado — da gratificação individual.

Estão aqui, podemos dizer, quase todas as principais
tendências que naqueles oito meses e meio se digladiaram na arena do país, esgrimindo argumentos e, várias vezes, nalguns casos, brandindo G-3 e até trotil em defesa de uma ideia para Portugal.

Não era o mesmo o Portugal que ambicionavam (que ambicionávamos) erguer dos escombros cívicos deixados por meio século de ditadura.

Era até diferente. Nalguns casos bastante diferente, como tão bem expressa uma das célebres fotomontagens do Jornal Novo que reproduzimos neste livro e nos mostra, a oito dias do 25 de Novembro, duas partes já separadas de Portugal: acima do Mondego — Mário Soares, Sá Carneiro, Freitas do Amaral , o almirante Pinheiro de Azevedo, o brigadeiro Pires Veloso, o comandante Alpoim Calvão; a sul — Álvaro Cunhal, Otelo, Rosa Coutinho, José Manuel Tengarrinha e Pereira de Moura, Isabel do Carmo e o actor José Viana.
“Estão criadas condições para a existência e o antagonismo de dois Portugais. O Portugal Norte, que passa por socialista democrático. O Portugal Sul, que passa por comunista e extrema-esquerdista”, escreve Artur Portela Filho, em editorial desse dia, 18 de Novembro de 1975.

Mário Soares e Pires Veloso, Otelo, José Manuel Tengarrinha, Portela Filho, coabitam, num mesmo Portugal, 32 anos depois. Juntam-se-lhes aqui, neste auditório de um jornal marcante (amado e odiado nesse tempo) António Ramalho Eanes, Galvão de Melo, Vasco Lourenço, Lemos Pires, Tomé, Matos Gomes, Pezarat Correia, Sousa e Castro,
Jaime Gama, Luís Roseira (constituinte que no livro traça um panorama infelizmente ainda hoje actual do douro, ao ser substituído por António Barreto),
António Dias Lourenço, José Luís Saldanha Sanches, Maria José Morgado, Américo Duarte (que não vejo mas prometeu vir),
e numerosos nomes que nesse tempo escreviam notícias, reportagens, crónicas, editoriais, faziam noticiários, apresentavam programas (vi Joaquim Furtado, João Alferes Gonçalves, João Paulo Dinis,
Baptista Bastos, Carlos Albino, José Carlos Vasconcelos – deve ter ido paracima fechar a edção da Visão desta semana - José Sasportes)
— para além de muito outros, civis e militares, que ficam de fora, entre tantos dos que aqui se encontram e que, em pólos opostos, deram fogo, cada um a seu modo e na sua trincheira, às brasas que aqueceram aqueles meses.

Este livro é uma homenagem a todos eles e aos muitos outros, milhares de portugueses anónimos, que viveram, numa vertigem de entrega e paixão, os dias alucinantes do PREC.

Por mim, deixem dizer-lhes obrigado, nas vossas pessoas, militares e civis, que ao agirem como agiram, então e hoje, apesar de tantas ilusões e desilusões, de tantos erros até, determinaram e garantem um rumo a Portugal que permitiu ao Zé Pedro e a mim escrevermos nos nossos jornais livremente, sem que nunca a mais leve tentativa tenha sido feita, fosse por quem fosse, directa ou indirectamente, para que a história, as histórias que íamos contando fossem outras ou fossem contadas de outra maneira.
E que depois, quando chegou a hora de as passar a livro, o pudéssemos fazer em inteira liberdade e independência. Apenas nós, horas, noites sozinhos nestas instalações, nós, a equipa de produção, as secretárias, até ao momento de entregarmos o livro, que este sábado vai chegar (por ninguém lido antes, nas altas administrações ou direcções de um ou do outro jornal) às mãos dos leitores do Expresso e do Público.

Há gente nova para quem este agradecimento deve soar estranho. Mas quem era adulto em 25 de Abril de 1974 (jornalista, escritor, militar, político, cidadão) sabe do concreto, inestimável valor do que falo, e tem um nome: LIBERDADE.