domingo, junho 11, 2006

Carta de um leitor

Exm.º Provedor dos Leitores do Diário de Notícias,

José Carlos Abrantes,

Escrevo esta mensagem para contestar o tratamento noticioso dado pelo DN à acção de propaganda promovida na passada terça-feira, dia 30 de Maio, pela vereadora do CDS/PP na CML, Maria José Nogueira Pinto, a propósito das anunciadas "linhas mestras de intervenção" para recuperação da zona Baixa-Chiado, propostas pelo respectivo Comissariado.

Noticiadas no dia seguinte 31 de Maio, as referidas "linhas-mestras" foram anunciadas não numa vulgar conferência de imprensa, como seria usual, mas numa sessão para a qual a referida vereadora, inteligentemente, convidou os directores dos principais jornais nacionais (fazendo-os sentir como se tivessem tido acesso a informação privilegiada).
Conseguiu assim que as ideias fossem aplamente noticiadas, sem crivos editoriais ou hierárquicos, como aconteceria no caso de uma conferência de imprensa perante jornalistas, redactores, obrigados a prestar contas aos seus superiores. Aparentemente, e segundo jornalistas, dos vários órgãos de Com. Social, que habitualmente acompanham os trabalhos da CML, as novidades nem serão por aí, além. Mas, os directores, normalmente mais centrados, noutros assuntos, assim pensaram, uma vez que só eles haviam sido convidados, assim se sentindo "entre pares".

Há que conceder, que os objectivos da vereadora foram atingidos: Correio da Manhã e Diário de Notícias, publicaram notícias escritas pelos próprios directores; Público, deu abertura da secção local. Apenas o "24horas" fugiu à regra (por não ter sido convidado ou por critérios editorais, desconheço e não cuidei de saber). Admito ter-me escapado o acompanhamento que fez, ou não, o "Jornal de Notícias".

Mas, se todos divulgaram, o DN foi mais longe com notícia assinada pelo director - "Um projecto para 'bombar' o coração da Baixa-Chiado" (um título que o próprio Comissariado não desdenharia certamente), antecedido de editorial "Mais Cidade", também do director António José Teixeira.
Neste editorial constam passagens (pérolas) como "seis cidadãos têm dedicado GENEROSAMENTE ..." parte do seu tempo a "reinventar o coração de Lisboa". Se estes cidadãos ("iluminados" ou "seis magníficos", a expressão é minha, mas caberia no espírito do texto) o fazem por GENEROSIDADE, não o sei, mas as verbas orçamentadas para os custos do Comissariado (entre as quais 90 mil euros/mês, 89 mil em bom rigor, para pagar a três assistentes) não devem certamente saír do respectivo bolso.

Eu próprio sou jornalista, portador do título n.º 2720, assino com o nome de Rui Arala Chaves, e questiono-me sobre esta confusão/'mistura: opinião favorável + autor de 'notícia' sobre o mesmo assunto num mesmo jornal. Não tenho qualquer pretensão de ensinar ética ou deontologia ao director do DN, António José Teixeira, jornalista que me tenho habituado a respeitar ao longo dos anos, ao ponto de se ter tornado uma referência actual.
Gostaria assim de ver melhor esclarecida a questão da opinião e informação numa mesma edição de jornal (estão separadas, mas não creio que a mesma pessoa a ter uma opinião tão positiva do projecto, seja capaz de sobre ele escrever com o mínimo de objectividade: devida a qualquer jornalista, quanto mais a um director). Certo é que o por mim mencionado respeito (e credibilidade) sofreu um forte abalo.

Com toda a consideração, subscrevo-me,

(Leitor identificado, mas que solicitou o anonimato)