quinta-feira, julho 20, 2006

Poynteronline

Journalism with a Difference
From Fear to Storytelling: Covering Disability from Outside Your Comfort Zone
How to tell stories of people with disabilities without reverting to the pity/hero/inspiration models.


We know we're supposed to leave our biases at the door when we enter our newsrooms, but what about our fears?

No one -- including journalists -- wants to think he or she or a loved one might become disabled at some point in his or her life. But every day we learn of serious injuries resulting from car accidents; people who have been diagnosed with Parkinson's disease or ALS; diving accidents that have left someone paralyzed; a relative facing sudden blindness or total loss of hearing; a neighbor with diabetes who has had a leg amputated; or a local soldier severely injured while serving in Iraq.

How do most of us deal with such fears? By pushing them out of our minds, which, for journalists, might result in not covering important disability stories in our communities because they make us uncomfortable.

Out of sight, out of mind, as they say.

"Centuries of tradition that regarded anyone with a disability as malevolent or cursed by a vengeful god might help explain why such deeply held prejudices have endured," writes Jack A. Nelson in "The Disabled, the Media, and the Information Age."

"In addition, deep-seated anxieties exist in each of us as to our own vulnerability," Nelson bluntly warns.

We like to think of ourselves as consummate professionals, capable of rising above our biases and fears. But the fear of disability is so personal, so deeply ingrained, that we must first acknowledge it before we can write the real stories.

You can start right now by reading over the following scenarios. Think about how each one makes you feel. Don't over-think them; just go with your gut.
1.) You see a picture of Christopher Reeve, post-accident, with his breathing tube and strapped into his high-tech electric wheelchair.
2) On the evening news, you hear the brilliant Stephen Hawking lecturing through his voice synthesizer.
3) You watch a family that includes a child with Down syndrome playing in a park.
4) You're walking in the corridor of your office, and a new employee who is sight-impaired and using a cane approaches you.
5) You're in a movie theater and a patron with cerebral palsy is making loud sounds that are disruptive.
6) You receive a phone call from your cousin, who tells you her 6-year-old daughter has just been diagnosed with a severe form of autism.
Do you feel pangs of pity? Moments of discomfort or shame? Do you feel angry? Most of us would feel all these emotions, and very few of us could leave them at the newsroom door.

That's why we are more likely to gravitate toward stories in our comfort zones -- stories that calm our fears or offer uplifting themes. These most often include:
  • Pity stories, which focus on "victims" of a disability, make others feel they aren't as bad off as the "victims."
  • Hero stories are about those who "overcome" their disabilities (often disabled athletes) and are designed to show there is some good in the world.
  • Inspirational stories -- any piece on Christopher Reeve, Jerry Lewis' "kids" during his MDA telethon -- make us believe that some good can come out of inexplicable tragedy.
Yes, such stories can calm fears, but they also reinforce inaccurate stereotypes and prevent journalists from digging deeper and doing better.

You can do something about it.

The next time you're about to assign or report a story about an issue or person with a disability, ask yourself if you are automatically going for the pity, hero or inspirational angle. What is a better story, the one that would give readers a more accurate picture of the disability experience in your community?

Learn from Joseph P. Shapiro, a reporter for NPR who said in the manual, "Reporting on Disability: Approaches and Issues" that "disability issues are rich territory for unusually rewarding stories. Why? Because disability issues are interesting and often complex. Because most coverage is cliched, leaving plenty of room for thoughtful stories that stand out. Because good reporting can change the way people think."

Shapiro should know. His reporting on disability is widely praised as the best in the business.

terça-feira, julho 18, 2006

Compreender o jornalismo e o leitor

José Manuel Barroso
Jornalista

"Será possível compreender o jornalismo? E os jornalistas? E a relação dos jornalistas com os leitores? Estrela Serrano, ex-jornalista , ex-assessora da Presidência no tempo de Mário Soares, professora universitária e actual membro da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, publicou recentemente um interessante e vivíssimo livro sobre estes temas (e outros afins), o qual merece ser lido por jornalistas e não jornalistas. Merece mesmo.

Quando estive presente na sessão de lançamento da obra, prometera a mim próprio escrever sobre o livro (logo, sobre essa temática). E, após reler os textos que, enquanto provedora dos leitores, ela publicou no DN esse desejo cresceu. É que eles são deveras estimulantes para jornalistas e para não jornalistas. Mas o tempo corre, os temas que um quinzenal cronista, como hoje sou, vai agendando em mente vão-se acumulando e, no dia de cumprir calendário, muitas vezes um tema mais actual ou mais à mão cavalga o outro. Foi o que sucedeu comigo - e daí só hoje ter metido mãos à obra.

A Estrela Serrano tem uma vantagem óbvia, ao abordar estas temáticas: já esteve do lado de fora e do lado de dentro, conhece o mundo dos media na sua diversidade e riqueza e - porque não dizê-lo? - na sua perversidade. E estudou e estuda esse mundo do ponto de vista teórico. Os textos do seu Para Compreender o Jornalismo (assim se chama o livro, editado pela Minerva) resultam de um saber de experiência feito, de alguém que encara o jornalista e o leitor sem o deslumbramento de um ou a indignação fácil do outro. E, por isso mesmo, é capaz de, a uns e a outros, dar o nome às coisas.

Dar o nome às coisas não é tarefa fácil, sobretudo por não ser entendível, na sua simplicidade, pelo jornalista e/ou pelo leitor.

De um modo geral, os jornalistas não amam o provedor. Serem criticados ou censurados pelo provedor nas páginas do "seu jornal" é encarado, normalmente, como humilhação pública. O leitor, por seu lado, espera do provedor aceitação automática da sua eventual razão de queixa - e verificar que tal não sucede não aumenta a sua estima por ele. Mesmo assim, estou crente, pela experiência que tenho das redacções (e não falo apenas da minha experiência no DN), que a maioria dos jornalistas riscaria com o maior gosto o provedor do mapa do jornal. O que talvez não seja verdadeiro para a maioria dos leitores.

Somado o que atrás expus, talvez tenhamos como resultado a indiscutível utilidade da figura do provedor, na sua função de regulador e de (que palavra escolher?)... educador. De uns e de outros. Na sua crónica semanal, naquele número de caracteres que o jornalista olha por vezes de soslaio, o provedor, armado apenas do poder da palavra, rectifica excessos, critica erros de quem faz notícias. E o mesmo singelo poder lhe serve para fazer justiça ao reparo ou à queixa do leitor ou lhe explicar - explicando o jornalismo e a relatividade da tarefa do jornalista - o porquê da sua não razão e o porquê da correcção do texto jornalístico posto em dúvida. Neste sentido, o provedor é um mediador e um pedagogo. Jornalistas e leitores aprendem com ele e essa aprendizagem é determinante para que uns e outros entendam quanto, como sublinha Estrela Serrano, "o jornalismo só faz sentido quando se relaciona com a sociedade".

Faço parte da minoria dos jornalistas que pensam haver um crescente divórcio entre jornalismo e sociedade. Algo que não transparece nos jornais ou nos inquéritos de opinião porque, como corporação que são, os jornalistas não se questionam muito a si próprios e, se o fazem, não o transferem muito para o conhecimento do leitor. Que diabo!, admitir pública e sistematicamente o erro seria injectar no leitor a dúvida sobre a credibilidade do jornalismo e dos media - algo que, além do mais, seria comercialmente desastroso.

De um modo geral, o jornal diário ou semanário, quando erra, remete o reconhecimento do erro para as pouco lidas páginas de "cartas do leitor" ou "cartas ao director" - e, por isso, nalguns casos, esse sintético repositório de queixas ou de rectificações é uma terrível sentença sobre a credibilidade de certas peças jornalísticas. Nas televisões (com excepção recente e honrosa da RTP), nem provedor há. E é sabido quanto é mais determinante, na formação da ideia do leitor sobre pessoas ou eventos, um título ou um texto incorrectos do que uma lacónica emenda escondida nas páginas de cartas. Que dizer então de uma imagem manipulada ou mal usada? Porque, na sociedade de hoje, face ao enorme poder dos media e dos jornalistas, o cidadão é, na generalidade, um ser desarmado.

Se os jornalistas tivessem obrigatoriamente de estar "do outro lado", apenas algumas semanas, teriam a exacta noção da crueldade irreversível de uma notícia errada ou mal defendida, ética ou deontologicamente; se os leitores pudessem estar, por uns dias, ao lado do jornalista decerto compreenderiam melhor a sua missão e a terrível "tensão permanente entre a incerteza e a exactidão", de que também fala Estrela Serrano no seu tão interessante livro. Lê-lo é, de certa forma, para uns e para outros, "estar de outro lado", compreender melhor e mais. E, ao escrever isto, estou a sublinhar a importância do papel do provedor nas páginas dos nossos jornais."

in DN, 18 de Julho de 2006

Compreender o jornalismo e o leitor

José Manuel Barroso
Jornalista

"Será possível compreender o jornalismo? E os jornalistas? E a relação dos jornalistas com os leitores? Estrela Serrano, ex-jornalista , ex-assessora da Presidência no tempo de Mário Soares, professora universitária e actual membro da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, publicou recentemente um interessante e vivíssimo livro sobre estes temas (e outros afins), o qual merece ser lido por jornalistas e não jornalistas. Merece mesmo.

Quando estive presente na sessão de lançamento da obra, prometera a mim próprio escrever sobre o livro (logo, sobre essa temática). E, após reler os textos que, enquanto provedora dos leitores, ela publicou no DN esse desejo cresceu. É que eles são deveras estimulantes para jornalistas e para não jornalistas. Mas o tempo corre, os temas que um quinzenal cronista, como hoje sou, vai agendando em mente vão-se acumulando e, no dia de cumprir calendário, muitas vezes um tema mais actual ou mais à mão cavalga o outro. Foi o que sucedeu comigo - e daí só hoje ter metido mãos à obra.

A Estrela Serrano tem uma vantagem óbvia, ao abordar estas temáticas: já esteve do lado de fora e do lado de dentro, conhece o mundo dos media na sua diversidade e riqueza e - porque não dizê-lo? - na sua perversidade. E estudou e estuda esse mundo do ponto de vista teórico. Os textos do seu Para Compreender o Jornalismo (assim se chama o livro, editado pela Minerva) resultam de um saber de experiência feito, de alguém que encara o jornalista e o leitor sem o deslumbramento de um ou a indignação fácil do outro. E, por isso mesmo, é capaz de, a uns e a outros, dar o nome às coisas.

Dar o nome às coisas não é tarefa fácil, sobretudo por não ser entendível, na sua simplicidade, pelo jornalista e/ou pelo leitor.

De um modo geral, os jornalistas não amam o provedor. Serem criticados ou censurados pelo provedor nas páginas do "seu jornal" é encarado, normalmente, como humilhação pública. O leitor, por seu lado, espera do provedor aceitação automática da sua eventual razão de queixa - e verificar que tal não sucede não aumenta a sua estima por ele. Mesmo assim, estou crente, pela experiência que tenho das redacções (e não falo apenas da minha experiência no DN), que a maioria dos jornalistas riscaria com o maior gosto o provedor do mapa do jornal. O que talvez não seja verdadeiro para a maioria dos leitores.

Somado o que atrás expus, talvez tenhamos como resultado a indiscutível utilidade da figura do provedor, na sua função de regulador e de (que palavra escolher?)... educador. De uns e de outros. Na sua crónica semanal, naquele número de caracteres que o jornalista olha por vezes de soslaio, o provedor, armado apenas do poder da palavra, rectifica excessos, critica erros de quem faz notícias. E o mesmo singelo poder lhe serve para fazer justiça ao reparo ou à queixa do leitor ou lhe explicar - explicando o jornalismo e a relatividade da tarefa do jornalista - o porquê da sua não razão e o porquê da correcção do texto jornalístico posto em dúvida. Neste sentido, o provedor é um mediador e um pedagogo. Jornalistas e leitores aprendem com ele e essa aprendizagem é determinante para que uns e outros entendam quanto, como sublinha Estrela Serrano, "o jornalismo só faz sentido quando se relaciona com a sociedade".

Faço parte da minoria dos jornalistas que pensam haver um crescente divórcio entre jornalismo e sociedade. Algo que não transparece nos jornais ou nos inquéritos de opinião porque, como corporação que são, os jornalistas não se questionam muito a si próprios e, se o fazem, não o transferem muito para o conhecimento do leitor. Que diabo!, admitir pública e sistematicamente o erro seria injectar no leitor a dúvida sobre a credibilidade do jornalismo e dos media - algo que, além do mais, seria comercialmente desastroso.

De um modo geral, o jornal diário ou semanário, quando erra, remete o reconhecimento do erro para as pouco lidas páginas de "cartas do leitor" ou "cartas ao director" - e, por isso, nalguns casos, esse sintético repositório de queixas ou de rectificações é uma terrível sentença sobre a credibilidade de certas peças jornalísticas. Nas televisões (com excepção recente e honrosa da RTP), nem provedor há. E é sabido quanto é mais determinante, na formação da ideia do leitor sobre pessoas ou eventos, um título ou um texto incorrectos do que uma lacónica emenda escondida nas páginas de cartas. Que dizer então de uma imagem manipulada ou mal usada? Porque, na sociedade de hoje, face ao enorme poder dos media e dos jornalistas, o cidadão é, na generalidade, um ser desarmado.

Se os jornalistas tivessem obrigatoriamente de estar "do outro lado", apenas algumas semanas, teriam a exacta noção da crueldade irreversível de uma notícia errada ou mal defendida, ética ou deontologicamente; se os leitores pudessem estar, por uns dias, ao lado do jornalista decerto compreenderiam melhor a sua missão e a terrível "tensão permanente entre a incerteza e a exactidão", de que também fala Estrela Serrano no seu tão interessante livro. Lê-lo é, de certa forma, para uns e para outros, "estar de outro lado", compreender melhor e mais. E, ao escrever isto, estou a sublinhar a importância do papel do provedor nas páginas dos nossos jornais."

in DN, 18 de Julho de 2006

domingo, julho 16, 2006

OTA E TGV

Ex. Senhor Presidente,
Permito-me divulgar esta carta, transmitindo-a ao Ex. Senhor Primeiro Ministro e outros meios políticos e à Comunicação Social com a sugestão de a ela se referir ou publicar como "carta aberta", se o desejar.

António Brotas

Lisboa, 15 de Julho de 2006

Ex. Senhor Presidente da República,

O sub-título que leio na primeira página do jornal o "Público"de hoje: "Presidente pediu ontem mais estudos mas primeiro ministro garante que projecto (do TGV) avança já para Madrid", leva-me a enviar directamente a V. Ex.ª os dois textos que se seguem, que desde há uma semana tenho estado a tentar publicar nos jornais.

Peço ainda a atenção de V.Exª para os dois textos enviados em anexo, o artigo "Contributo para o estudo da futura rede ferroviária portuguesa de bitola europeia" , que foi publicado na revista INGENIUM da Ordem dos Engenheiros, e o artigo: "Vantagens e inconvenientes de um aeroporto na Ota", que será publicado em breve.

Penso que estes textos, que podem ser corroborados por muitos outros de outros autores, podem mostrar a V.Exª que:

1-A linha do TGV para Madrid, acordada há três anos com os espanhois na cimeira ibérica da Figueira da Foz, é um imperativo nacional, que, sob pena de graves atrasos e inconvenientes, entre eles a perda de fundos comunitários, deve ser feita o mais rapidamente possivel para ligar a região de Lisboa à rede de bitola europeia.

A construção desta linha estratégica, estruturante e em absoluto necessária, não deve ser feita depender de estudos de custo/benefício, que agora só serviriam para atrasar, mas depende da escolha do modo de travessia ferroviária do Tejo, que exige um amplo debate e estudos técnicos, que ainda não foram feitos e estão a atrasar o processo.

A linha para Madrid é, sem dúvuida, prioritária em relação ao TGV para o Porto, cujo traçado, aliás, não pode ser decidido sem se conhecer antes o modo de travessia do Tejo e de entrada dos comboios em Lisboa.

A outra grande prioridade ferroviária nacional é a linha de bitola europeia de Vilar Formoso a Aveiro, que na primeira ocasião deve ser prolongada até ao Porto, fundamental para a economia de todo o Norte do país. Sem estes dois grandes projectos nacionais, todos os outros projectos ferrroviários são meros paleativos que nos fazem perder tempo, dinheiro, e a oportunidade de nos modernizar.

2-Não há rigorosamente nenhum estudo sério que justifique a construção de um aeroporto na Ota. Os estudos frequentemente referidos, que têm servido de suporte a recentes campanhas publicitárias, são estudos dispersos, dum modo geral feitos há quase 7 anos, que nunca foram globalmente avaliados e apreciados, que têm funcionado como cenário encobridor de um processo do qual têm sido sistematicamente afastados todos os técnicos portugueses com conhecimentos e capacidade crítica que exprimiram opiniões divergentes. E, depois deste processo "selectivo", não se enconta nesses estudos um argumento que se mantenha em pé e justifique a Ota.

Neste momento, a opinião pública já está razoavelmente informada. O país precisa de um novo aeroporto, mas de um aeroporto que possa servir durante um século. A sua localização deve ser escolhida depois de definidas as grandes linhas dos futuros traçados ferroviários. Os investimentos previstos para a Portela vão-nos dar tempo para pensar. O que precisamos é de evitar decisões precipitadas e de não perder demasiado tempo

Todo o interesse da Presidência da República por estes assuntos é altamente benéfico. Mas permito-me sugerir a V. Ex. que procure fazer com que ele se traduza por um "livro branco", ou algo no género, em que, no mínimo, seja possivel registar e confrontar os textos produzidos sobre estas questões, para evitar que seja necessário repeti-los anos a fio.

Apresentando a V. Exª os meus melhores cumprimentos, subscrevo-me

António Brotas

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SOBRE A LOCALIZAÇÃO DO FUTURO AEROPORTO DE LISBOA

Em 26 de Junho de 1999 , o "Público" publicou uma carta aberta minha, dirigida ao então Primeiro Ministro, escrita na sequência de três encontros promovidos pela Sociedade de Geografia de Lisboa e pelo Instituto Superior Técnico sobre a localização do Novo Aeroporto de Lisboa (NAL), que começava com as seguintes palavras:

"Caro Guterres,

Acho que lhe devo dizer que a construção do futuro aeroporto na Ota é uma decisão em absoluto errada, altamente gravosa para o país, o que com o tempo se tornará cada vez mais evidente."

Na sequência, pedi a várias entidades: Presidência da República, Governo, Assembleia da República, Ministério das Obras Públicas e Comunicações, partidos políticos, para organizarem um "livro branco" para o país poder ser cabalmente informado sobre esta matéria, de imensa inportância para o seu futuro.

Sem este livro, as informações chegam ao público fragmentadas e o debate anda em círculo, porque os articulistas esquecem, com frequência , argumentos já conhecidos, que outros lhes têm de lembrar, embora já o tenham feito várias vezes anos atrás.

Assim, por exemplo, o Comandante Sousa Monteiro que num artigo sobre aeroporto da Ota hoje publicado no "Público" escreve: "Assiste-se a uma frenética movimentação no sentido de tornar reversivel a decisão deste Governo relativamente à concretização na Ota do Novo Aeroporto de Lisboa", não pode ignorar que:

1-No caso de ser construido, no que diz respeito à segurança das aeronaves, o aeroporto da Ota será menos seguro que o da Portela, classificado na categoria III B pela ICAO (numa escala com a segurança máxim IIIC) enquanto que o da Ota, no parecer da Parsons (empresa consultora da NAER) será da categoria I, ou II, sendo no segundo caso necessário fazer grandes trabalhos para nivelar um monte a Norte das pistas.

2- Um aeroporto na OTA, cuja construção exige gigantescos movimentos de terras e que depois de feito não tem qualquer possibilidade de expansão, será sempre muito caro. A sua exploração exige, em consequência, o encerramento da Portela, sem o que seria uma catástrofe financeira.

3- Como único aeroporto da região de Lisboa, o aeroporto da Ota estará saturado antes de 2050, atrofiando o país e deixando-o numa situação de solução extraordinariamente dificil.

4- Há vários locais, todos a Sul do Tejo, onde é possivel construir de um modo faseado e com custos muito menores, um aeroporto com amplas possibilidades de expansão, que poderá, se o quizermos e quando o quizermos, absorver todo o tráfego da Portela, e que, conjugado com a nossa situação geográfica e a nossa condição de país independente, nos poderá assegurar um lugar significativo no futuro mundo da aviação comercial.

António Brotas

Professor Jubilado do IST

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26 de Junho 2006

À especial atenção do Senhor Ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações, dos Presidentes das Câmaras de Lisboa, Barreiro, Montijo e Vila Franca de Xira e dos Grupos Parlamentares dos partidos com assento na Assembleia da República.

PROPOSTA PARA O ESTUDO DA TRAVESSIA FERROVIÁRIA DO TEJO

Enquanto não for decidido o modo de travessia do Tejo da futura linha do TGV para Badajoz o futuro ferroviário português na metade Sul do país é uma incógnita.

Esta indefinição está a causar graves inconvenientes locais, regionais e internacionais.

Num artigo recentemente publicado na revista INGENIUM da Ordem dos Engenheiros com um contributo para o estudo da nossa rede ferroviária, disse que a nossa urgente prioridade ferroviária era a da escolha entre as três hipóteses que designei com letras:

A- Travessia do Tejo acima de Vila Franca.
Travessia entre Alverca e Alhandra na direcção do Porto Alto.
Ponte para o Barreiro.
Num recente encontro promovida pela ADFER, o Eng. Arménio Matias propos uma 4ª hipótese:

C’- Estação terminal do TGV na linha da cintura, nas Olaias, e travessia do Tejo por ponte ou tunel na direcção do Montijo.

O estudo de todas estas hipóteses tem, obviamente, ser conjugado com a indicação precisa da estação terminal dos comboios TGV em Lisboa.

Trasta-se de um assunto em que os técnicos portugueses e as populações mais directamente interessadas têm muito a dizer. Não é facil fazer o estudo comparado de 4 hipóteses bastante diferentes. Não tenho qualquer indicação deste estudo ter começado. Não é, também, de modo nenhum, um assunto a ser estudado por técnicos distantes desconhecedores da nossa realidade e cuja competência não podemos controlar.

Nestas condições, nalguma medida inspirado pelas regras do actual Campeonato Mundial de Futebol, proponho:
Que a Câmara Municipal de Lisboa, em colaboração com as do Barreiro e Montijo, organize um debate (com encontros, na Internet e elaborando, eventualmente, um "livro branco") em que sejam analisadas as vantagens e inconvenientes das soluções C e C’, com vista a procurar saber-se qual é a melhor. O Ministério das Obras Públicas, o LNEC, a REFER e a CP podem ser solicitados a fornecer as informações técnicas julgadas necessárias.

Os apoiantes declarados das duas propostas podem-se encarregar de fazer as apresentações iniciais, que outros técnicos e entidades poderão, depois, comentar e acrescentar. Penso que muitas pessoas das zonas interessadas poderão acompanhar este debate, apresentando contributos e opiniões a considerar.


Estou convicto que um debate deste tipo, desde que aberto e bem organizado, conseguirá muito provavelmente por em evidência dum modo convincente qual das duas soluções C ou C’ é a melhor.

Que, sob o patrocínio da Câmara de Vila Franca de Xira, seja organizado um debate
semelhante, acompanhado pelas populações interessadas e conhecedoras dos problemas, em que sejam analisadas as soluções A e B.

Se, porventura, alguma entidade ou grupo tiver uma proposta a fazer diferente das referidas, deve-lhe ser dada a oportunidade de a apresentar claramente ao país, submetendo-a igualmente à crítica pública.

Depois, naturalmente, terá de haver uma "final", em que os orgãos com competência nacional, bem informados depois dos processos referidos, decidirão assumindo as suas responsabilidades diante de um país igualmente bem informado. Parecem-me ser esta, simultaneamente, a regra básica da funcionamento da Democracia e, também, o melhor modo de encontrarmos as convenientes soluções para os problemas do nosso país.

António Brotas

Professor Jubilado do Técnico

sábado, julho 01, 2006

NÃO APAGUEM A MEMÓRIA DO ALJUBE

Ao longo de mais de 30 anos a cadeia do Aljube, em Lisboa, foi um dos principais símbolos da repressão fascista.
Os presos eram aí encarcerados em celas com cerca de 2,20x1,50 m , enxovias onde a cama era uma tarimba em madeira com uma enxerga sem lençóis. Não havia luz natural, mas uma pequena lâmpada que só acendia nas horas de refeição e um pouco antes do silêncio nocturno. Pela sua dimensão, onde só cabia uma pessoa, estas celas ficaram conhecidas como “curros”. O isolamento era total e as visitas de familiares, raras.
A estas condições de detenção juntavam-se outras não menos vergonhosas e vexatórias da dignidade dos presos: não tinham direito à posse de qualquer objecto pessoal, não podiam usar cinto nem atacadores, a leitura era proibída. Só tinham direito a um banho por semana, quando havia, no mesmo local onde evacuavam: por cima da “turca” colocavam um estrado de madeira.
Nestas condições estiveram encarcerados por longos períodos, que chegaram a atingir seis meses sem visitas, milhares de portugueses que lutaram contra a opressão do regime salazarista.
Devido a queixas várias, entre as quais da Amnistia Internacional, o Aljube acabou por ser fechado em Agosto de 1965 e em 1968 Marcelo Caetano ordenou a destruição dos “curros”.

No mundo concentracionário do fascismo português, que foi uma realidade brutal, a cadeia do Aljube constituia a primeira etapa do que era um verdadeiro Roteiro do Terror: seguiam-se longos interrogatórios, que chegavam a durar semanas, na sede da PIDE na Rua António Maria Cardoso, em cujas salas foram inflingidas as torturas do sono e da estátua e executados brutais espancamentos. O Forte de Caxias, o Forte de Peniche e os terríveis campos de concentração do Tarrafal e de S. Nicolau, foram outros locais de opressão e tortura do regime salazarista.
O tempo de detenção dos presos, mesmo quando em cumprimento de pena, aplicada em julgamentos fantoches no sinistro Tribunal Plenário, ficava sempre ao arbitrío da PIDE e durava o tempo que esta entendesse ao abrigo da famosa lei das “medidas de segurança” que estabelecia que o tempo de condenação podia ser prorrogado por períodos de tres anos renováveis: em resultado disso muitos resistentes passaram longos anos na prisão, sem nunca saberem quando seriam libertados.

Por todas estas razões e porque se assiste a uma consistente tentativa de apagar a memória do que foi a resistência ao fascismo, quando o regime democrático para o qual estes resistentes contribuiram significativamente se mantém estranhamente desatento a este passado, os signatários, ex-presos políticos, tomam a iniciativa de apelar a todos os companheiros de luta para que se juntem a nós na exigência da recuperação do edifício do Aljube como local de memória da resistência ao fascismo.

Não consentiremos no branqueamento do fascismo nem na deturpação da luta dos resistentes!

Lisboa, 1 de Julho de 2006

Texto assinado pelos que foram presos políticos no Aljube

NÃO APAGUEM A MEMÓRIA I

Discurso de Artur Pinto

"Todos sabemos a razão da nossa presença aqui, juntos de novo pela solidariedade que nos uniu na luta pela liberdade, pela democracia e pela justiça.
E se a luta pela liberdade em boa medida se realizou com a instauração da democracia, a luta pela justiça, essa continua. Porque é por justiça que se reclama aqui e agora.

A benevolência da nossa democracia permitiu
- que os agentes torcionários da PIDE vivam tranquilamente da sua reforma, alguns mesmo agraciados por serviços prestados à Pátria, e dêem entrevistas à televisão;
- que dessa casta hedionda de bufos nem um só tenha sido denunciado e julgado;
- que os juízes fantoches que no Tribunal Plenário de Lisboa julgaram muitos dos que aqui estão, que aplicaram as discricionárias medidas de segurança a mando da PIDE, se reformassem sem que tivessem sido minimamente molestados;
-que altos responsáveis das forças da GNR e da PSP que reprimiam brutalmente os nossos protestos de rua, saissem ilesos;
- que os guardas prisionais que nos enxovalhavam continuassem a prestar serviço;
-etc, etc

É de justiça que se fala quando se assiste à actuação provocatória e ameaçadora frente à televisão de elementos decladaramente fascistas e à despudorada iniciativa do Presidente da Câmara de Santa Comba Dão da criação de um Museu do Estado Novo para, segundo ele, “retirar a carga política negativa” associada ao nome de Salazar. E isto não foi uma figura de retórica.
Só uma profunda ignorância e desconsideração da história permite que alguém que nesse regime não passaria de um reles serventuário do Ministério do Interior, e isto não é uma figura de retórica, possa proferir tais alarvidades numa demonstração pública do mais profundo desprezo por todos os que lutaram contra a opressão do Estado Novo.

Reclama-se por justiça aqui e agora porque não basta condecorar, muito justamente, alguns resistentes: é preciso que haja consagração e memória públicas dos resistentes e da resistência, para que não percamos uma parte importante da nossa identidade como povo. Porque a repressão era constante, permanente, generalizada e revestia as mais diversas formas, a resistência não se esgota nos que passaram pelos cárceres da PIDE.

Resistentes foram os militares que antes de 25 de Abril de 74 se revoltaram contra o regime, que passaram pelos presídios militares de Elvas e da Trafaria, que foram julgados em Tribunal Militar, expulsos das Forças Armadas e aos quais ainda não foi prestada a devida homenagem;
Resistentes foram os que deram o seu apoio incondincional à luta, dando voz à denúncia da repressão, recolhendo donativos para os mais necessitados, levando mensagens, transportando amigos e materiais clandestinos, dando abrigo ou tão simplesmente dando conforto. Muitos deles acabaram por ver as suas carreiras profissionais prejudicadas, outros viram-se mesmo afastados dos seus cargos.
Todos devem constar da memória da luta anti-fascista.

Em homenagem a essas companheiras e companheiros permito-me ler duas das muitas mensagens de apoio que chegaram de pessoas que desconheço e que, de algum modo, resumem o que nos trouxe aqui.



Amigo Artur,
Atraves de outros amigos recebi esta sua mensagem.
Eu vivo ja ha muitos anos no estrangeiro e por acaso estando por Lisboa a semana passada, passando pelo Aljube, expliquei ao meu filho o que representava aquele sitio e que era uma pena que dele nada se fizesse. O meu pai esteve la tambem por alguns meses. Como deve perceber esta mensagem veio em cheio e gostaria bastante de aderir a esta iniciativa.
Saudacões desde Amesterdão,
Isabel Galacho - Bibliotecaria/Livreira

E uma outra

Caro Artur
Por favor some o meu nome à vossa lista de reinvindicação face à memória do Aljube
Desejo-vos que se faça justiça!
ANA FILGUEIRAS - PEDAGOGA


É só isso que se pretende: que se faça justiça.
Obrigado pela vossa presença"