sábado, julho 01, 2006

NÃO APAGUEM A MEMÓRIA I

Discurso de Artur Pinto

"Todos sabemos a razão da nossa presença aqui, juntos de novo pela solidariedade que nos uniu na luta pela liberdade, pela democracia e pela justiça.
E se a luta pela liberdade em boa medida se realizou com a instauração da democracia, a luta pela justiça, essa continua. Porque é por justiça que se reclama aqui e agora.

A benevolência da nossa democracia permitiu
- que os agentes torcionários da PIDE vivam tranquilamente da sua reforma, alguns mesmo agraciados por serviços prestados à Pátria, e dêem entrevistas à televisão;
- que dessa casta hedionda de bufos nem um só tenha sido denunciado e julgado;
- que os juízes fantoches que no Tribunal Plenário de Lisboa julgaram muitos dos que aqui estão, que aplicaram as discricionárias medidas de segurança a mando da PIDE, se reformassem sem que tivessem sido minimamente molestados;
-que altos responsáveis das forças da GNR e da PSP que reprimiam brutalmente os nossos protestos de rua, saissem ilesos;
- que os guardas prisionais que nos enxovalhavam continuassem a prestar serviço;
-etc, etc

É de justiça que se fala quando se assiste à actuação provocatória e ameaçadora frente à televisão de elementos decladaramente fascistas e à despudorada iniciativa do Presidente da Câmara de Santa Comba Dão da criação de um Museu do Estado Novo para, segundo ele, “retirar a carga política negativa” associada ao nome de Salazar. E isto não foi uma figura de retórica.
Só uma profunda ignorância e desconsideração da história permite que alguém que nesse regime não passaria de um reles serventuário do Ministério do Interior, e isto não é uma figura de retórica, possa proferir tais alarvidades numa demonstração pública do mais profundo desprezo por todos os que lutaram contra a opressão do Estado Novo.

Reclama-se por justiça aqui e agora porque não basta condecorar, muito justamente, alguns resistentes: é preciso que haja consagração e memória públicas dos resistentes e da resistência, para que não percamos uma parte importante da nossa identidade como povo. Porque a repressão era constante, permanente, generalizada e revestia as mais diversas formas, a resistência não se esgota nos que passaram pelos cárceres da PIDE.

Resistentes foram os militares que antes de 25 de Abril de 74 se revoltaram contra o regime, que passaram pelos presídios militares de Elvas e da Trafaria, que foram julgados em Tribunal Militar, expulsos das Forças Armadas e aos quais ainda não foi prestada a devida homenagem;
Resistentes foram os que deram o seu apoio incondincional à luta, dando voz à denúncia da repressão, recolhendo donativos para os mais necessitados, levando mensagens, transportando amigos e materiais clandestinos, dando abrigo ou tão simplesmente dando conforto. Muitos deles acabaram por ver as suas carreiras profissionais prejudicadas, outros viram-se mesmo afastados dos seus cargos.
Todos devem constar da memória da luta anti-fascista.

Em homenagem a essas companheiras e companheiros permito-me ler duas das muitas mensagens de apoio que chegaram de pessoas que desconheço e que, de algum modo, resumem o que nos trouxe aqui.



Amigo Artur,
Atraves de outros amigos recebi esta sua mensagem.
Eu vivo ja ha muitos anos no estrangeiro e por acaso estando por Lisboa a semana passada, passando pelo Aljube, expliquei ao meu filho o que representava aquele sitio e que era uma pena que dele nada se fizesse. O meu pai esteve la tambem por alguns meses. Como deve perceber esta mensagem veio em cheio e gostaria bastante de aderir a esta iniciativa.
Saudacões desde Amesterdão,
Isabel Galacho - Bibliotecaria/Livreira

E uma outra

Caro Artur
Por favor some o meu nome à vossa lista de reinvindicação face à memória do Aljube
Desejo-vos que se faça justiça!
ANA FILGUEIRAS - PEDAGOGA


É só isso que se pretende: que se faça justiça.
Obrigado pela vossa presença"