quinta-feira, novembro 30, 2006

IMAGEM DO PASSADO

“A LIBERDADE CONDUZINDO O POVO”

EUGÈNE DELACROIX

pintura a óleo sobre tela, 260 X 325 cm, 1830


Sobre Eugène Delacroix

Ferdinand Victor Eugène Delacroix nasceu em Charenton-Saint Maurice, França, a 26 de Abril de 1798. Segundo o poeta e seu grande admirador Baudelaire, ele foi «O último dos grandes artistas do Renascimento e o primeiro moderno» (Neret, 1999).
Com 17 anos Delacroix tornou-se pupilo de Pierre-Narcisse Guérin, sendo introduzido na linha neo-clássica de Jacques-Louis David. Escolheria porém como seu o estilo mais faustoso dos grandes mestres Miguel Ângelo e Rubens, com influências ainda de Veronese, Géricault e John Constable.
Apontado como um dos mais importantes pintores do Romantismo, a sua técnica caracterizava-se pela justaposição de tons da mesma cor, acompanhada pelo uso de cores contrastantes (não só entre o claro e o escuro, mas também entre as cores complementares) e pequenas pinceladas, criando desta forma um efeito vibrante de dinamismo e uma luminosidade intensa que lhe eram característicos.
A importância das obras que produziu é reconhecida pela sua designação como uma das influências da escola Impressionista. Particularmente a sua teoria da cor seria uma grande influência para a libertação dos pintores do objecto, que se verificaria no século XX (Krauße, 1995). Ele considerava que a cor tinha sobretudo um significado emocional, e reconhecia-lhe por isso mesmo um valor intrínseco.
Com mais de 800 quadros pintados e mais de 6000 desenhos feitos, Delacroix faleceu em Paris em 13 de Agosto de 1863.


Sobre “A Liberdade Conduzindo o Povo”

Provavelmente a mais marcante das obras de Eugène Delacroix, “A Liberdade Conduzindo o Povo” foi pintada para comemorar e representar a Revolução Francesa de Julho de 1830, que derrubou a Monarquia e colocou o poder nas mãos do povo.
É uma pintura a óleo sobre tela, de proporções consideráveis (260 X 325 centímetros), datada do ano do acontecimento que reproduz. Faz actualmente parte da colecção do Museu do Louvre, em Paris.
Delacroix, que não chegou a ter um envolvimento físico na revolta, mostrou porém de que lado estavam os seus sentimentos, ao representar-se no quadro (é ele o homem de cartola), cumprindo assim o que anunciara em carta ao seu irmão: se não podia lutar, queria pintar pela França.
Mas a característica mais distinta desta pintura é a representação da Liberdade, que Delacroix escolheu como líder do povo à falta de um líder real e histórico, na figura de uma mulher, e não de uma forma abstracta.
Certos autores consideram ser “A Liberdade Conduzindo o Povo” o primeiro trabalho eminentemente político da pintura moderna (Jacobus, 1986). O seu poder enquanto tal é bem atestado pelo facto de, depois de ter sido adquirido por Louis-Philippe no Salão de Paris de 1831, ter sido escondido dos olhos do público por se recear que pudesse incitar ao levantamento popular.


O conceito de analogia

A analogia é um conceito chave da imagem, podendo ser definida como a relação entre esta e a realidade que visa representar.
Por deformação que advém da sobre-exposição a imagens com relações fortemente directas com a realidade, o observador tende a associar a analogia a um tipo idealizante.
Foi como contraponto a esta visão que Ernst Gombrich (L’art et l’illusion) definiu como convencional toda e qualquer representação, mesmo a mais analógica, enunciando ainda existirem convenções mais naturais do que outras. Segundo este autor (Mirror and map, 1974), a analogia tem um aspecto de espelho, porque reflecte uma realidade visual, ou certos elementos da mesma, bem como um aspecto mapa, pois imita a natureza através da utilização de esquemas que contribuem para uma convencionalidade a ser atingida. Para mais, considera-se que há sempre mapa no espelho.
De acordo com este duplo aspecto da analogia houve abordagens teóricas que se aproximaram mais de um ou de outro.
A interpretação da analogia como espelho levou ao conceito de mimese, o ideal da analogia absoluta. André Bazin (Ontologie de l’image photographique, 1945) defendeu que a arte havia vivido num conflito entre as necessidades de ilusão e expressão — situando no século XVI e na perspectiva o «pecado original da pintura ocidental» — até ser “libertada” da segunda pela invenção da fotografia, essencialmente objectiva e por isso mais verosímil do que a pintura. A fotografia dará assim origem a uma analogia perfeita, que será a expressão do real.
Privilegiando a analogia enquanto mapa, surgiram teóricos que colocaram a analogia dentro de um processo de referência (Goodman, 1968,1976), como elemento associado à denotação e exemplificação. Nesta perspectiva ideológica, não se pode copiar o mundo na perfeição, pois nem sequer se sabe como ele é, e só a própria visão implica em si a interpretação. Assim, tem-se como certo que a analogia nunca é perfeita e que copiar é fabricar.
As abordagens de Bazin e Goodman, ainda que antagónicas, permitem porém alguma sintetização (Aumont, 1993): a analogia possui realidade empírica (constata-se perceptivamente), foi historicamente produzida de forma artificial (o que permitiu chegar a um certo tipo de semelhança) e é utilizada para fins de ordem simbólica.
As imagens analógicas são, pois, sempre uma construção, que se joga entre dois termos: imitação da semelhança natural e produção de signos socialmente comunicáveis. Segundo a importância de um ou de outro podem estabelecer-se graus de analogia.
Esta ideia foi defendida por Metz ao apontar que uma analogia muitas vezes serve para difundir uma imagem sem nada de analógico (como acontece por exemplo na imagem publicitária ou narrativa) e que é codificada, logo culturalmente determinada.


O conceito de analogia em “A Liberdade Conduzindo o Povo”

Em “A Liberdade Conduzindo o Povo” o grau de analogia está simultaneamente próximo do pólo da semelhança natural e do pólo da produção de signos, muito devido à sua vertente simbólica, que é aliás uma das características do Romantismo, corrente de que o quadro em questão é um dos expoentes.
Desde logo, a representação da população que segue a Liberdade pode ser interpretada como espelho, é grande a verosimilhança com os verdadeiros intérpretes da Revolução, embora se saiba que aquela não é uma imagem pura dos mesmos.
Por outro lado, a multidão, nas suas roupas sujas e gastas, as poses heróicas, as faces eivadas de determinação, num todo marcado pelo tom épico, é analogicamente significativa também como mapa, conjunto de emblemas do povo que fez a Revolução, que é em si uma abstracção.
Em contraste com a atitude triunfal dos revolucionários, temos a decadência e ruína dos soldados mortos, a seus pés. E se a um nível a analogia funciona porquanto a imagem é verosímil com a realidade, igualmente aqui a referência analógica se faz enquanto simbologia: a derrota do Exército e muito particularmente da Monarquia.
Quanto ao auto-retrato de Eugène Delacroix, se é o reflexo (leia-se espelho) do artista, é no entanto muito mais uma carta para se ver naquela imagem todos os que acreditaram na revolta sem nela estarem presentes, como o próprio pintor. É assim, também, eminentemente um símbolo.
Mas esta vertente figurativa é particularmente importante no elemento de força da pintura: a Liberdade. Se em obras anteriores, como as do classicista David, esta era uma figura abstracta, aqui é uma mulher sensual e fulgurante, que empunha numa mão uma espingarda e na outra a bandeira tricolor. A referência analógica é a um tempo feita de forma directa: a Liberdade representada numa mulher, como espelho.
Mas existe uma componente alegórica, que faz com que a analogia se estabeleça preferencialmente através da construção de esquemas mentais, que permitem que se use algo que é familiar para explicar, e representar, algo que não o é. Assim, atinge-se uma universalidade na leitura da mulher não enquanto tal, mas como representação do conceito de Liberdade.
Todos estes elementos concorrem portanto para a identificação da cena como uma representação da Revolução Francesa, comportando por isso mesmo uma forte relação analógica, da imagem com a realidade.


Bibliografia

AUMONT, Jacques, A Imagem, Campinas, Papirus Editora, 1993
JACOBUS, Lee A., Humanites: The Evolution of Values, McGraw-Hill, 1986
KRAUßE, Anna-Carola, História da Pintura: do Renascimento aos Nossos Dias, Köneman, 1995
NERET, Gilles, Eugène Delacroix 1798-1863: The Prince of Romanticism, Köln, Taschen, 1999


Internet

http://www.artchive.com
http://www.mcs.csuhayward.edu/~malek/illusions/tempscv.html
http://www.oir.ucf.edu