terça-feira, janeiro 23, 2007

CARTA DE ACACIO BARRADAS

Caro Provedor:

Fiquei bastante intrigado com o tratamento discriminatório que o DN utilizou na edição de sábado, 13 de Janeiro, em relação a duas pessoas julgadas e condenadas por terem sido encontradas a conduzir com taxas de alcoolémia superiores às permitidas por lei.
Uma dessas pessoas, o futebolista Luisão, do Benfica, foi identificado sem qualquer constrangimento pela jornalista Sílvia Freches, numa peça com título a seis colunas e ilustrada com uma grande fotografia. Já no respeitante a um juiz conselheiro jubilado do Supremo e residente no Porto, a que se alude pelo mesmo motivo numa página da Sociedade, a autora da notícia, Inês David Bastos, faz uma pormenorizada descrição das facécias que caracterizaram o caso, bem mais recheado de situações burlescas que o de Luisão, mas decidiu encobrir a identidade do protagonista. Ou seja: na aplicação da regra de ouro da notícia – que, quem, quando, onde, como e porquê – o «quem» foi pura e simplesmente escamoteado ao conhecimento dos leitores.
A que se deve a desigualdade? Que motivos determinam que no mesmo jornal e no mesmo dia dois jornalistas (certamente com o aval dos respectivos editores) apliquem critérios tão díspares para o tratamento de matérias tão semelhantes? Se o editor do Desporto aplicasse o mesmo critério que o editor da Sociedade, noticiando apenas que um futebolista do Benfica fora apanhado a conduzir embriagado, provavelmente teria feito recair a suspeita sobre todos os elementos da equipa encarnada. No caso do juiz conselheiro jubilado, o facto de o mesmo não ter sido identificado fará inevitavelmente recair a suspeita sobre os seus pares em idênticas condições. Será correcto lançar esta confusão e atingir inocentes?
Ao tempo em que (já lá vão uns aninhos…) fui editor do Fecho de Edição do DN, onde tive o privilégio de trabalhar com um escol de jornalistas seniores, este tipo de discrepâncias era normalmente detectado a tempo de ser objecto de correcção, sempre que possível de acordo com os editores em causa. Na falta desse acordo, havia recurso à decisão superior da Direcção, mas em caso de ausência desta – e por sua delegação – actuava o meu livre arbítrio. E agora, como é?
Bem sei que os tempos de crise e os apertados orçamentos não são favoráveis à manutenção de estruturas dispendiosas que, discretamente, funcionam como as redes de protecção dos acrobatas do circo, impedindo-os de se estatelarem no solo quando erram o salto. O resultado é a perda de segurança e de controlo da qualidade, que dá origem a situações inaceitáveis, como a que referimos.
Seja como for, há que fixar normas que impeçam estes procedimentos contrastantes, que dão ao leitor a ideia de que não há um critério definido para o jornal no seu todo, cabendo a cada jornalista e respectivo editor o direito de estabelecer, em cada secção – e caso a caso –, o procedimento a adoptar. E viva a anarquia!
Pelo que conheço do actual Director do DN, com o qual trabalhei noutra conjuntura hierárquica e que é pessoa cuja competência reconheço e muito admiro, estou certo que será o primeiro a aceitar as razões que assistem a este reparo e que tomará (se é que ainda não tomou) as providências necessárias para evitar situações semelhantes. Na expectativa de que tal aconteça, não quero todavia deixar de considerar útil que aos leitores seja dada uma explicação sobre o que sucedeu e qual a norma a adoptar no futuro. Em nome da coerência.
Com os melhores cumprimentos,
Acácio Barradas

Lisboa, 17 de Janeiro de 2007

Acácio Barradas