sexta-feira, maio 04, 2007

DAMAS, ASES E VALETES

"Garcia Marquez disse um dia que um escritor escreve, fundamentalmente, para que gostem dele. No verão de 2005, eu e a ana sentíamos que aqueles que tinham sido nossos companheiros de luta tinham deixado de gostar de nós. sentíamo-nos traídas, esquecidas, excluídas. essa circunstância aproximou-nos tanto que um dia a ana, num daqueles ímpetos que a caracterizam, me disse : tu que já escreves, queres tentar um livro comigo? e eu disse que sim, que queria, não só porque não sei dizer que não à ana, mas porque nesse verão de há 2 anos não havia esplanadas cheias de sol, nem chegavam telexes, nem ninguém dizia “os teus ombros” – isto é, ao contrário do que escrevera um dia Eduardo Guerra Carneiro, “não era assim que se fazia a história”.
Já não sei dizer hoje se foi fácil, esse livro a meias. Sei que não teria sido possível sem a leitura atenta, ao ritmo dos capítulos, da Néné, da Margarida e do Toni. Que também não teria sido possível sem a magia dos dedos e da infinita paciência do Manel, do David e da Rita que faziam reaparecer no écran textos que desapareciam misteriosamente. Ou sem a câmara atenta e a generosa disponibilidade do Roberto Santandreu. E que teria sido impossível sem a cumplicidade do Carlos Veiga Ferreira, outrora meu editor, hoje meu querido amigo. A Inês foi a nossa primeira escolha, a única, a óbvia. Dizíamo-nos: quem compreenderá tão completamente as fragilidades e a força destas 2 mulheres?
porque de 2 mulheres trata o livro – Elisa e Isabel “mulheres parecidas e diferentes”, dizia-me a ana, naquela manhã cinzenta em que o livro se tornou projecto. Mais do que primas carnais, como diria o Marcelo, elas são as irmãs que escolheram sê-lo. Não são meras cartas de baralho, como poderia indicar o título. não têm reis, acrescentaria a ana, porque não há reis.
Há quem nos acuse de este ser um livro autobiográfico. Todos os livros o são um bocadinho, penso. há muito de mim na isabel e muito da ana na elisa. mas também há truques, piscar de olhos, porque às vezes trocávamos, e eu era a elisa e a ana a isabel, e éramos sempre um bocadinho as duas, porque nós apaixonámo-nos por aquelas personagens à medida que as íamos inventando, descobrindo, escrevendo.
Há um poema do Nuno Júdice que eu cito sempre nos meus livros e que, à força de o repetir, o julgo um bocadinho meu:”sei que é irremediável o que temos para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que é também a mais absurda, de um sentimento”
Porque é de sentimentos que se trata. vivências, paixões, decepções, vidas desperdiçadas, desesperos, angústias, morte.
A Elisa e a isabel partilharam durante anos a vida, a política, a crença nos amanhãs que cantam. Entregaram-se numa entrega absoluta que só é possível quando se acredita profundamente. e um dia chegaram, metaforicamente, os tanques à Checoslováquia. e em Portugal instalou-se uma paz pôdre, um reinado de baralho de cartas. por isso, elas escolheram outros caminhos : para Elisa, o exílio militante em países tão difíceis como Beirute ou Timor. para isabel, a reclusão, vivendo a vida das personagens dos livros que traduz – vidas exemplarmente descritas num dos livros em que trabalha : “não és uma pessoa única e não tens uma única história, nem a tua cara, o teu ofício e as restantes circunstâncias da tua vida passada ou presente permanecem invariáveis. O passado move-se e os espelhos são imprevisíveis. Mesmo que te mantenhas imóvel, estás a todo o momento a mudar de lugar e de tempo não só pela tua imaginação mas também pela tua consciência”.

obrigada ana, obrigada inês, obrigada carlos, obrigada a todos"

Palavras de Maria Manuel Viana na apresentação do livro "Damas, Ases e Valetes de que é co-autora com Ana Benavente. A apresentação decorreu na Casa Fernando Pessoa, no dia 3 de Maio de 2007 e foi feita por Inês Pedrosa.