domingo, setembro 07, 2008

A ARTE ESQUECIDA DE SIDNEY LUMET

texto de João Lopes
Crítico

Na próxima quinta-feira, será lançado nas salas de cinema Antes Que o Diabo Saiba Que Morreste, uma realização do veterano Sidney Lumet (fez 84 anos no passado dia 25 de Junho), com interpretações de Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei e Albert Finney. Para não poupar nas palavras panfletárias, direi que me parece, não apenas um dos acontecimentos centrais do ano cinematográfico português, mas também um dos filmes maiores do cinema americano dos últimos anos.

Não tenhamos ilusões: Antes Que o Diabo Saiba Que Morreste não só não terá as honras de telejornais oferecidas aos mais rotineiros filmes de super-heróis, como a sua presença no mercado vai ser relativamente discreta. Não que eu espere que esse mercado reflicta os meus juízos de valor... Acontece que, além de estarmos perante um vibrante drama policial, género popular por excelência, este é também um filme recheado de nomes não propriamente marginais ou esotéricos. Para nos ficarmos pelos actores citados, lembremos que todos eles já acumularam mais de uma dezena de nomeações para Óscares, com duas distinções (melhor actriz secundária para Tomei, em O Meu Primo Vinny, e melhor actor para Hoffman, em Capote). O próprio Lumet já obteve cinco nomeações, quatro para melhor realizador, uma para melhor argumento adaptado: nunca ganhou, mas possui um Óscar honorário atribuído em 2005.

Que se passa, então? As respostas não podem restringir-se ao mercado português. As suas raízes estão na indústria americana e no triunfo de um cinema dominado por critérios meramente económicos de gestão. Repare-se: não está em causa que tal gestão possa gerar filmes fabulosos (acontece todos os anos, felizmente). Só que tal triunfo tem vindo a secundarizar o valor comercial de autores como Lumet que, para todos os efeitos, representam valores nucleares da mais nobre tradição de Hollywood.

Importa, por isso, não banalizar a frondosa densidade da história. Acima de tudo, é preciso não permitir que um jornalismo sem memória reduza o passado do cinema a uma colecção de referências mais ou menos pitorescas e tendencialmente anedóticas.

Lumet pertence a esse lote de realizadores (Robert Mulligan, John Frankenheimer, etc.) que começou a trabalhar na televisão dos anos 50, revelando uma peculiar disponibilidade para integrar/discutir as grandes lições narrativas do cinema clássico. A sua primeira longa-metragem, Doze Homens em Fúria (1957) seria mesmo um hábil compromisso entre dispositivos de raiz televisiva e o tradicional drama cinematográfico de tribunal.

Nos anos 70, a importância renovadora de Lumet reflecte-se, em especial, nos dois títulos em que dirigiu Al Pacino: Serpico (1973) e Um Dia de Cão (1975). Mais do que revisões do policial clássico, são filmes marcados pelos valores da escola novaiorquina (Cassavetes, etc.), apostando num realismo à flor da pele indissociável de novos conceitos narrativos, exemplarmente reflectidos no prodigioso trabalho de montagem de Dede Allen (outra figura fundamental da mesma geração).

Agora, Lumet está "reduzido" a um nome fraco do próprio mercado. Resta saber se há espectadores realmente insatisfeitos com os clichés da época e interessados em redescobrir a excelência da sua arte esquecida.


publicado no DN, de 07/09/2008