quinta-feira, setembro 11, 2008

Bruno devia ter jogado três minutos

11.09.2008, Bruno Prata

"1. Não se pode exigir que Carlos Queiroz resolva de um dia para o outro a costumeira ineficácia goleadora dos jogadores portuguesas. Mesmo assim, o seleccionador nacional deve ter dormido a última noite com muito peso na consciência. A três minutos do fim, Portugal vencia por 2-1 e era previsível que a Dinamarca ia gastar os últimos cartuchos em lances aéreos, ou não tivesse, em média, uma vantagem de seis centímetros. O que fez Queiroz? Trocou Nani por João Moutinho. Os adeptos aplaudiram, sem perceberem o tiro no pé. Como foi possível apostar num jogador de 1,70m num momento daqueles quando, no "banco", estavam não só os 1,90m de Bruno Alves, mas também a agressividade e o portentoso jogo aéreo do central?

2. O problema da diferença de estatura assaltou-me pela primeira vez aos 72 minutos, quando percebi que ia sair Hugo Almeida. Ele era o português claramente mais alto (1,92m) em campo e vinha sendo precioso em situações em que recuava para ajudar na área de Portugal. Acabei por dar um desconto porque Hugo Almeida parecia, de facto, esgotado e porque para o seu lugar entrou Nuno Gomes, que está longe de ser um anão. Mas até aquela diferença de 12 centímetros de estatura dos dois avançados me veio à cabeça quando a Dinamarca iniciou a última reviravolta no marcador.

3. O 2-2 surgiu de um canto em que Christian Poulsen subiu mais alto que toda a gente, não sendo também despicienda a má saída de Quim. Mas há coincidências do diabo: o reforço da Juventus mede 1,90m, exactamente a altura de Bruno Alves...

4. O mais estranho é que Queiroz até ensaiou a possibilidade de lançar no jogo Bruno Alves, passando Pepe para a posição seis. O que terá então bloqueado a aposta mais óbvia? O seleccionador deu a entender que a sua estratégia passou por apostar na posse de bola naqueles minutos finais. Uma resposta razoável, se não levássemos em conta a estatura e o jogo cada vez mais directo do adversário. Por isso, estou tentado a acreditar que a opção de Queiroz foi condicionada pelo receio dos adeptos. Que é como quem diz: não quis ser acusado de recorrer a um defesa para salvar o resultado. Mais valia que o tivesse feito.

5. O mais estúpido é que Portugal sofreu a sua primeira derrota em quase 12 anos de jogos de qualificação para os Mundiais e ficou numa situação muito perigosa após uma exibição muito interessante. Há muito que não se via um Portugal tão adulto, consistente e com ideias tão variadas. E não é fácil consegui-lo frente a uma Dinamarca que tanto ataca com quatro, cinco e até seis, para logo depois recuar toda para trás da linha da bola, com os alas Lovenkrands e Rommedahl e até Tomasson a ajudarem na criação de triângulos defensivas em todas as zonas em que caía o esférico.

6. Queiroz fez as duas alterações que se impunham quando deixou no "banco" Antunes e Carlos Martins. O primeiro ainda está verde para um jogo com a intensidade do de Alvalade. Paulo Ferreira foi uma solução para a esquerda há muito ensaiada por Mourinho no Chelsea e, ontem, até foi dos melhores. A entrada de Maniche deu mais cola ao miolo e garantiu maior liberdade a Deco para inventar. Não foi por aí...

7. A Dinamarca fez três golos nos únicos remates (bem) dirigidos à baliza e a única defesa de Quim foi a uma bola desviada por Raúl Meireles.

8. Deco fez uma exibição maravilhosa. Pepe também brilhou, mas alguém precisa de dizer a Bosingwa para deixar de pensar que é o super-homem.

9. Há muito que um jogo não me deixava com sentimentos tão contraditórios. Foi um grande espectáculo, uma batalha táctica de grande nível. Mas já não me lembrava de ficar tão irritado."


No Público