segunda-feira, setembro 08, 2008

O fim da classe média?


Pedro Mexia

Somos todos classe média, é pelo menos aquilo que repetimos uns aos outros, e nesse caso talvez seja algo inquietante que nos comuniquem que essa mítica «classe única» se acabou. A tese vem em La fine del ceto medio, que saiu na Einaudi em 2006 e teve edição portuguesa pela Teorema (Low Cost – O Fim da Classe Média). Massimo Gaggi, jornalista do Corriere della Sera, e Edoardo Narduzzi., empresário, explicam um facto simples: a classe média corresponde a um modelo de produção e de consumo que já se extinguiu, um modelo industrial nacional em que a procura correspondia à oferta. Esse sistema económico foi construído por uma classe, a burguesia, que sustentou as sociedades ocidentais durante dois séculos, e que plasmou a sua hegemonia em todos os avanços políticos europeus, do constitucionalismo ao welfare state. O capitalismo, com os seus complexos mecanismos de concertação e mobilidade social, tornou a classe média essa tal classe única a que todos pertencemos ou à qual todos aspiramos. Mas o triunfo da globalização acabou com o mundo em que a classe média sempre viveu. Esse mundo supunha uma razoável estabilidade de modos de vida, e nunca como hoje a vida mudou tanto: o emprego deixou de estar garantido, o Estado social entrou em colapso, as ideologias claudicam, o conceito de família ficou mais fluido, o tempo acelerou e o espaço é imaterial. Ou seja: nas últimas décadas o «capitalismo avançado» desfez os laços de «cidadania» e de «pertença» que estavam na origem das classes médias.
Segundo Gaggi e Narduzzi, o mundo divide-se hoje entre uma ínfima minoria de «aristocratas» do capital, uma classe de tecnocratas bem remunerados, uma classe proletarizada em expansão e a nova classe low cost. Porquê a designação low cost? Porque empresas com a IKEA, a Ryanair, a Virgin ou a Zara representam um novo paradigma económico que naturalmente criou um novo paradigma social. São marcas «facilmente reprodutíveis e reconhecíveis em todo o mundo» que apostaram na tecnologia e na eliminação dos custos intermédios e que prometem uma democratização das comodidades burguesas. Se antes consumíamos aquilo que nos davam, agora queremos ter uma palavra a dizer naquilo que compramos: «Favorecidos pela transparência garantida pelos novos processos técnicos, pelo reduzido custo da aquisição e troca das informações e pela dimensão global da procura, os consumidores low cost estão numa posição de força que nem aqueles que fizeram parte da brasonada classe média alguma vez sonharam ocupar. Têm maior facilidade e familiaridade em organizar-se e obter resultados e podem orientar a oferta para satisfazer as suas exigências». Aparentemente, toda a gente ganha com isso. Uma empresa como a IKEA triplicou as vendas num decénio. E a massa dos consumidores vive experiências gratificantes e «interclassistas» como nunca tinha experimentado antes. A classe low cost, dizem Gaggi e Narduzzi, é «um estrato que, nos seus contornos e na sua psicologia, nos recorda as massas romanas da época imperial: não pede «panem et circensis», porque sabe que tem de pagar os serviços que consome, mas deseja jogos cada vez mais demorados e pão cada vez mais abundante e a preços descendentes».
É um diagnóstico fascinante, mas que peca por excesso de optimismo e de pessimismo. Julgo que os autores minimizam a conflitualidade social que renasce um pouco por todo o lado. E que não acentuam devidamente as componentes simbólicas e ideológicas de uma «classe social». Mas acima de tudo não me parece líquido que no capitalismo as mudanças sejam vividas verdadeiramente como rupturas. Têm sido sempre «crises» depois reabsorvidas pelo sistema num novo equilíbrio, mesmo quando instável. Um exemplo politológico é a dicotomia entre os valores «conservadores» e os valores «liberais» da governação thatcherista, que formou uma nova ortodoxia esquizofrénica que tem aguentado todos os embates. A «classe média» existe enquanto houver mercado e representação política. É uma classe pragmática por natureza, e embora nunca descure o pão e o circo, zela sempre pela sua sobrevivência. A classe média é darwiniana. E Darwin nunca se enganou.


in Público, dia 7 de Setembro de 2008