segunda-feira, fevereiro 16, 2009

O pai Playstation

Miguel Gaspar, no Público de hoje

Não será a imagem da semana, mas é certamente uma das legendas do mês. Publicada no tablóide britânico The Sun, diz assim: "PS3..Não será a imagem da semana, mas é certamente uma das legendas do mês. Publicada no tablóide britânico The Sun, diz assim: "PS3... O novo pai, Alfie Patten, 13 anos, a mãe, Chantelle Steadman, 15 anos, com a bebé deles, Maisie, a jogar Playstation". Durante 48 horas foi a história que chocou a Grã-Bretanha. Mas, desde ontem, o Sun tem outro "exclusivo mundial" ainda mais forte: a doença terminal de Jane Goody, de 27 anos, uma estrela britânica do Big Brother. Até ao fim, a sua vida já não se vai distinguir da do personagem de um reality show. Não existe limite para a obscenidade destas vidas mais reais do que a vida que ocupam o lugar da ficção nas sociedades contemporâneas.

Também para o jovem Alfie Patten e para a sua companheira Chantelle, dois anos mais velha, a celebridade efémera foi o resultado do elevado valor de mercado da sua história. Um repórter perguntou a Alfie: vais ser um bom pai? E desde então Alfie Patten responde a todas as perguntas garantindo que vai ser um bom pai - disse ao Sun que a primeira noite não foi tão difícil como ele esperava. O jornal insiste em mostrar a jovem família com um ar absolutamente descontraído e em sublinhar como continuam a jogar Playstation, apesar de tudo.
O caso, evidentemente, tornou-se político. É a diferença entre o jornalismo de sensações moderno e o que existe há mais de cem anos. Nada de fundamental mudou desde os primóridos da imprensa amarela até à sociedade da tele-realidade. Fizeram-se alguns melhoramentos, é certo, mas o essencial é velho como a espécie humana: procurar histórias aberrantes e vendê-las.

A novidade é o discurso político ter-se passado a articular em torno deste sensacionalismo mediático.
Não se pergunta a um miúdo de 13 anos apanhado nesta situação se ele vai ser um bom pai ou se sabe como vai pagar as contas (ao que parece, de vez em quando o pai dá-lhe uns trocos, não tem mesada fixa). Na verdade, a espectacularização da história de Alfie tem um fim moralista. Ela permite aos analistas e aos políticos conservadores falar na Broken Britain, na "irreparável" quebra de valores no Reino Unido (uma arma política forte mesmo em tempo de crise). E ainda levantar temas como a sexualização da sociedade e nos efeitos colaterais dos apoios à mães adolescentes.
Lê-se na imprensa britânica que o Reino Unido é o país europeu onde existem mais casos de gravidez na adolescência e aponta-se o dedo a um sistema de apoios a estas mães que seria demasiado generoso. Um dos subtextos desta história é que Chantelle engravidou ou não se importou de engravidar para usufruir desses benefícios - e por isso ela é fotografada descontraída a jogar Playstation. Ninguém pode, no entanto, dizer se foi assim - só é verdade a parte em que a vida dela está mais ou menos desfeita e pouco lhe resta além de ser subsidiopendente toda a vida. Mas há um reverso da medalha - apesar de ter a mais elevada taxa europeia de casos de gravidez na adolescência, o Reino Unido tem visto esse número descer consistentemente nos últimos 20 anos, diz o mesmo The Sun. Por outras palavras, o problema existe, mas as medidas políticas conduziram a resultados concretos. Viver de subsídios é mau, mas num quadro em que o problema global melhora, isso passa a ser um mal menor.

Sobra o problema moral. "Sexualização" da sociedade? Talvez seja mais adequado falar em espectacularização da sexualidade, como existe toda uma espectacularização da vida, que subordina os valores, a expressão da diferença, a individualidade a códigos únicos. A "indignação" moral e a mediatização de um caso como este, sem qualquer respeito pela privacidade dos adolescentes e do bebé envolvidos, são duas da faces de uma mesma hipocrisia. Jornalista (miguel.gaspar@publico.pt)

1 Comments:

Blogger Daniella said...

Ainda hoje, estou a tentar conseguir digerir esta trágica noticia... Será pláusivel que os pais desses dois jovens não tenham abertura suficiente para falar da sexualidade aos filhos? O que mais me encomoda, é que li numa fonte da internet (ainda a confrontar-me com a questão "Será um facto real, ou tentativa de venda?"), que a miúda já tinha tido relações sexuais com mais oito rapazes, cujas idades estão delimitadas no intervalo entre os 14 e os 16 anos, não sei se devo aceitar dogmaticamente ou se hei-de ser céptica em relação à última questão.

6:48 da manhã  

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