quarta-feira, fevereiro 11, 2009

PROBLEMAS DE IMAGEM

Miguel Gaspar

Andávamos nós entretidos com outros malmequeres e há algum tempo sem provas empíricas da existência do maior partido da oposição, mas bastou um enérgico comentário televisivo de Marcelo Rebelo de Sousa para nos mostrar que o PSD está afinal vivo e bem vivo - ou seja, autofágico, como de costume. Nem a fragilização do primeiro-ministro por conta do caso Freeport chega para anular a fome de autodestruição que continua a ditar leis lá para a S. Caetano à Lapa.Andávamos nós entretidos com outros malmequeres e há algum tempo sem provas empíricas da existência do maior partido da oposição, mas bastou um enérgico comentário televisivo de Marcelo Rebelo de Sousa para nos mostrar que o PSD está afinal vivo e bem vivo - ou seja, autofágico, como de costume. Nem a fragilização do primeiro-ministro por conta do caso Freeport chega para anular a fome de autodestruição que continua a ditar leis lá para a S. Caetano à Lapa. Mal vão as coisas quando o maior partido da oposição é primeira página porque um comentador acha que existe um problema de imagem e não quando o partido tem alguma coisa de substantivo a dizer. Mérito do comentador, sem dúvida, demérito do partido, mas também do país. No fundo continuamos a viver num universo político em que achamos os problemas de imagem mais importantes do que os problemas do mundo concreto. Amigos do marketing político, olá, temos uma notícia! A realidade, afinal de contas, existe. É mesmo a tendência dominante para a colecção Primavera/Verão - e quem sabe se para a colecção Outono/Inverno.
O problema de Manuela Ferreira Leite, segundo diz Marcelo, são os seus conselheiros. Deve haver alguma verdade nisto. Imagina-se o baronato social-democrata quando percebeu quem ia ser a sua líder: uma senhora a mandar no partido? Que chique! E, depois, é tão séria! Mas conservadorismo é conservadorismo. E Manuela Ferreira Leite paga as favas daquele marialvismo lusitano que não se importa nada que as senhoras mandem, desde que alguém mande na senhora, claro. É aí que entra o problema dos conselheiros. Para mais, esta nossa tradição machista à portuguesa não deve necessariamente muito à coragem. Mesmo revendo-se na tradição da cavalaria, nos exemplos do Lidador e do Contestável, gostam pouco de se chegar à frente. E o problema de Manuela Ferreira Leite, ao fim de todos estes meses, continua a ser o de ter muita gente pronta a dar conselhos e pouca gente disposta a ir à luta. O esperado, num país de treinadores de bancada.
Para resolver o problema da credibilidade da oposição, era necessário um governo sombra, alguém que seguisse dossiers e respondesse à letra a Manuel Pinho, a Mário Lino, eventualmente mesmo a Augusto Santos Silva. É o que se faz nos países civilizados e permitia um partido mostrar que tem uma política para cada sector. O único risco para o líder, evidentemente, é sair-lhe na rifa alguém pior do que Manuel Pinho, Mário Lino ou mesmo Augusto Santos Silva. Mas reconheço que é difícil fazer um governo sombra com um partido que mergulha na sombra sempre que está na oposição.

Já aqui escrevi há muitos meses, quando se discutia neste país o silêncio da líder da oposição, que um partido de governo não se constrói
com um rosto mas com vários. Mas persiste em Portugal a ideia de que um só líder chega para todas as encomendas. É o mito da era do político de plástico, em que vivemos desde os anos 1990. O mito do líder jovem e dinâmico e que faz coisas sexy para o povo, como jogging em cidades estrangeiras ou ser presidente de um clube de futebol. Um mito tão forte que agora a SIC até arranjou maneira de pôr o fantasma de Salazar a contracenar com Soraia Chaves, sex symbol do século XXI.
É também esse mito do líder providencial que continua a estar na raiz da desagregação interna do PSD e que tem causado a permanente rotação de líderes dos últimos anos, por muito diferentes que sejam esses líderes. E por muito real que seja o líder sombra do PSD actual (mora em Belém), esta histeria autofágica prejudica na verdade todo o sistema partidário. Jornalista (miguel.gaspar@publico.pt)


In Público de hoje