sábado, março 14, 2009

"O melhor canal de televisão"

Eduardo Cintra Torres

melhor canal de televisão cá em casa", escreveu um espectador. Os que acharam o canal uma maçada terrível depressa desapareceram de cena. Agora só há espectadores cativos do "Condoninho da Renata", um canal na web que o PÚBLICO disponibiliza no seu sítio.melhor canal de televisão cá em casa", escreveu um espectador. Os que acharam o canal uma maçada terrível depressa desapareceram de cena. Agora só há espectadores cativos do "Condoninho da Renata", um canal na web que o PÚBLICO disponibiliza no seu sítio. Uma câmara única colocada num poste de alta tensão da REN mostra em grande plano um ninho dum casal de cegonhas, 24 horas por dia.
Deveria ser o canal mais aborrecido do mundo, como opinaram leitores mais nervosos. Contraria a linguagem habitual da televisão, baseada em movimento, mudança de câmara, palavras, luzes, travellings, panorâmicas, músicas, risos, gritos, pessoas, cores garridas, letras, sobreposição de informações, emoções. Mas não é aborrecido. E o canal da Renata também tem semelhanças com a TV: garante um fluxo ininterrupto em que, mesmo nada sucedendo, há a promessa de que aconteça (neste instante o macho chegou com ervas secas para o ninho); e é em directo, o que garante a ligação psico-emocional da copresença. O único movimento, além de um zoom ocasional aproximando-nos dos animais, é o das próprias cegonhas, do vento que abana o poste e o da luminosidade. O canal não aborrece mais do que a própria TV, tão previsível e repetitiva. Uma espreita ocasional às cegonhas assemelha-se ao hábito do zapping, que é parte constitutiva da experiência do espectador.
O canal da Renata evidenciou o nosso antropocentrismo: quase todos os espectadores-leitores comparam o comportamento do casal de cegonhas ao humano. Já é assim desde a Antiguidade. A palavra hebraica para cegonha quer dizer piedosa e o animal até hoje simboliza a piedade e o amor filiais. Sócrates, o verdadeiro, dizia a Alcibíades: "o meu amor será como o da cegonha - depois de te chocar com um amor alado, este será acalentado de volta pelo passarinho ainda no ninho."
Os usos e gratificações que os espectadores têm obtido com este canal e com o dos grifos (agora com cegonhas negras) traduzem-se na enorme satisfação que obtêm da simplicidade e da aparente pureza da vida animal. Os comentários mostram o quanto a visão frequente das cegonhas lhes fornece um escape para a complexa vida humana. Mas também se percebe que as cegonhas à distância dum ecrã dão uma boa consciência a amigos da natureza preguiçosos, que substituem o birdwatching dos ingleses, feito de paciência e ar livre, por um birdwatching electrónico, entre dois cliques no aparente conforto do lar. Resta dizer o óbvio, às vezes o menos visível: há animais mais bonitos que outros e não é por acaso que as cegonhas atraem o olhar bondoso dos humanos.

A abertura do quinto canal vem ao arrepio da crise financeira e no audiovisual. Na Grã-Bretanha, debate-se a eventual fusão de dois dos mais importantes canais. Em Espanha, o governo socialista mudou a lei para que empresas de diferentes canais generalistas possam unir-se. Por cá, o governo quer um quinto canal - mas a decisão da ERC de chumbar as duas candidaturas surpreendeu por ser totalmente desajustada na justificação. Lendo as declarações de voto dos elementos da ERC (Semanário Económico, 28.02), percebe-se que, uma vez mais, os três que formam a maioria pró-governamental (Azeredo Lopes, Estrela Serrano e Elísio Oliveira) terão agido de acordo com alguma estratégia socretista ao chumbarem as propostas. Os outros dois reguladores (Assis Ferreira e Gonçalves da Silva) acharam o voto da maioria governamental "desproporcionado" do conteúdo e avisaram que a ERC "não se encontrava suficientemente habilitada para fazer uma análise substancial das propostas apresentadas". De facto, os argumentos dos três reprovadores foram exagerados, absurdos e extravasaram as competências do órgão regulador. Lopes e Serrano, quais Dupond e Dupont, apresentaram uma declaração de voto conjunta que nada explica do porquê do chumbo. Numa estratégia dúplice, o governo declarou no dia seguinte ao chumbo que mantinha o interesse na existência dum quinto canal, mas, para o Semanário Económico, apesar de formalmente o concurso prosseguir, o canal "morreu à nascença".
O lançamento dum quinto canal tem consequências contraditórias. Por um lado, aumenta a oferta. Por outro, é uma forma de "aniquilar o pluralismo", como referiu esta semana José Eduardo Moniz. O director-geral da TVI acrescentou que os canais existentes ficarão fragilizados, com menos 10 a 15 por cento das suas receitas actuais, já muito afectadas pela crise (a publicidade diminuiu mais de 20% este ano). Um quinto canal afectaria mais os privados do que a RTP, que vive do dinheiro dos contribuintes, entregue discricionariamente pelo governo. A RTP comporta-se como um canal comercial na programação e na concorrência, mas a diminuição das receitas publicitárias não afecta a sua estratégia, por se destinarem ao pagamento da dívida.
No caso dos privados, o quinto canal afectaria em especial o elo mais fraco, a SIC. A programação da SIC mostra hoje a pobreza material a que chegou. Os programas do prime-time ora são garantidos pelos jornalistas da casa, com pouca ou nenhuma despesa adicional (Aqui e Agora, Mário Crespo Entrevista), ora recorrem a conteúdos gratuitos ou de preço ínfimo, como o Tá a Gravar, feito com vídeos amadores do género a-noiva-cai-à-piscina. A falta de dinheiro e de liderança na SIC desmotiva o pessoal. Neste período de crise, a informação governamentalizou-se e, ao mesmo tempo, Pinto Balsemão, uma voz poderosa sobre a situação da comunicação social, calou-se na crítica há cerca de um ano.
A situação actual do concurso do quinto canal é hipócrita. O governo começou por querer o concurso, mas a sua maioria na ERC chumba as propostas, enxovalhando os concorrentes. O que quer o governo? Anular o quinto canal sem reconhecer que errou? Manter, neste período de campanhas eleitorais, os concorrentes e todos os grupos de comunicação social na sua dependência na expectativa do que decidirá, lá para Setembro ou Outubro? Não sei, nem espero uma resposta verdadeira do governo. Mas qualquer hipótese é má. Entretanto, este processo serviu para reiterar para que serve a ERC.

Em dezenas de horas diárias de RTP, o momento mais singular é a rubrica Bom Português. Como já referi, faz uso justo do conceito de vox populi. Não achincalha os entrevistados sobre ortografia. Não moraliza. Não acrescenta os rodriguinhos típicos do linguajar RTP. Pergunta, respostas, correcção: já está. Despacha. A estabilidade da rubrica contribui para o êxito e eficácia. Agora saiu um livro com o mesmo esquema rápido (Bom Português, Porto Editora, 2009). Em cada página, três ou quatro questões. O livro é redundante se se tem outros meios de verificação, mas ajuda e haverá um público que o pode usar em jogo de perguntas de algibeira.
Cuidado com a Língua (RTP) é mais longo, mas também eficaz. Cria uma narrativa para o apresentador, embrulha as questões linguísticas em papel de paisagem portuguesa e humor ligeiro. Não moraliza nem se desvia do realce devido ao esclarecimento das dúvidas linguísticas. Esclarece a origem de palavras e expressões, significados, corrige erros. Na construção técnica e narrativa, é dos mais bem feitos programas da TV portuguesa.

No Público, hoje