terça-feira, maio 04, 2010

O PARLAMENTO E OS PROJECTOS FERROVIÁRIOS

Os desentendimentos sobre os futuros grandes projectos ferroviários são, numa larga medida, devidos a os intervenientes que a eles se referm, economistas, jornalistas e políticos mal informados, falarem , quase exclusivamente, da rentabilidade dos comboios TGV. É, com efeito, totalmente errado por a rentabilidade destes comboios no centro da discussão.

O país tem uma rede ferroviária do século XIX , inicialmente construida com uma bitola igual à espanhola (bitola ibérica), diferente da europeia.(standad). A Espanha, mantendo embora em funcionamento algumas linhas de bitola ibérica, iniciou, aceleradamente, a construção de uma rede de linhas de bitila standad que a ligará a França. Dentro de alguns anos, se não fizermos o mesmo, seremos uma ilha ferroviária, o que será desastroso para a nossa Economia.

Temos, assim, simultaneamente, de criar uma nova rede de bitola europeia enquanto mantemos em funcionamento a antiga. O problema é complexo, mas pode ser resolvido dum modo progressivo com bom senso e com equilíbrio.

Diga-se, desde já, que a situação futura será muito mais benéfica para nós. Com as novas linhas, os nossos comboios de mercadorias poderão circular até à Polónia. Actualmente, não passam os Pirineus e, se nos atrasarmos, deixarão de atravessar a nossa fronteira.

A linha de bitola europeia de Madrid a Lisboa será um dos futuros grandes eixos ferroviários da Penínsulo ibérica. Esta linha servirá para o transporte de mercadorias, para o trânsito de velocidade média e baixa de passageiros e, ainda, adicionalmente, para comboios TGV. O transporte de mercadorias é, como dissemos, absolutamente vital para nós – esta linha será a nossa primeira grande abertura ferroviária para a Europa. O transporte a passageiros a média e baixa velocidade vai contribuir para o desenvolvimento do Norte do nosso Alentejo, da Estremadura espanhola e de algumas das zonas mais pobres de Espanha. Os comboios TGV serão, também, importantes, mas é errado, como dissemos, justificar, ou tentar regeitar, a construção desta linha pensando só na sua rentabilidade.

A linha de Madrid a Lisboa, chegará, um dia, a Lisboa cidade. Mas, no imediato, ela deve ser entendida como uma linha de Madrid à Área Metropolitana de Lisboa. A travessia ferroviária do Tejo é uma obra caríssima, com estudos que pouco mais são, actualmente, do que meros esboços e que são, desde já postos, em causa por inúmeros técnicos. Tal como está proposta pela RAVE, esta rravessia, comprometeria gravemente todo o nosso futuro ferroviário.

Não iremos, certamente, construi-la nos próximos anos, por razões técnicas e financeira. Os espanhois compreendem- no perfeitamente. Mas o interesse deles, e o nosso, é o de, o mais rapidamente possivel, por em funcionamento a linha vinda de Badajoz. No nosso caso, por causa das mercadorias.

Compreende-se, assim, a insistência do governo em avançar com o troço da linha de Caia (Badajoz) à plataforma logística prevista no Poceirão ( a entrada na Península de Setubal). Este projecto, exige, no entanto, alguns pequenos correctivos, perfeitamente conciliáveis com a sua construção a muito curto prazo.

Em primeiro lugar, há que dizer que não tem sentido fazer terminar uma linha destinada, entre outros, a comboios de alta velocidade numa plataforma logística. A linha a construir deve ir até à estação do Pinhal Novo onde passam actualmente os comboios da Fertagus para Lisboa e Setubal, e da CP para o Algarve.

Com este acrescento, de pouco mais de 15 km, a nova linha pode ser utilizada por comboios de passageiros, inclusivé comboios TGV. O Pinhal Novo é, de facto, um dos pontos mais acessíveis em toda a Área Metropolitana de Lisboa. Para os passageiros vindos de Cascais, por exemplo, a estação do Pinhal Novo é mais acessível do que a do Oriente. Com um pequeno custo adicional, a linha de Caia ao Pinhal Novo, tem, assim, um imenso interesse para nós e para os espanhois.

No que diz respeito às mercadorias, a construção de uma plataforma logística no Poceirão tem todo o sentido, mas não é necessário que a ela cheguem comboios TGV. O necessário é que nela convirjam linhas e ramais de bitola ibérica e europeia de várias origens e de ligação às nossas antiga e futura redes ferroviárias.

Em particular, terá todo o sentido construir uma linha de bitola europeia, e de baixa velocidade de Sines ao Poceirão. O que não tem sentido nenhum é construir uma linha de bitola ibérica de Sines a Évora.

António Brotas

Professor jubilado do IST e membro da Secção de Transportes da Sociedade de Geografia de Lisboa